08/11/2017

Baby steps #1

Hoje, pela primeira vez, olhando de cima para baixo em toda a verticalidade do meu ser, dei-me conta que não consigo ver os meus pés. E que grandes pés eles são.

06/11/2017

Nidificação

Dizem os livros da especialidade que o desejo de nidificação -- arrumar e limpar a casa como se não houvesse amanhã -- é um sintoma de parto eminente. Não desdigo, mas não valorizo sobremaneira. Muito antes do meu pequeno músico ser uma realidade, já os meus dias eram acometidos de vontades extremas de arrumar e limpar coisas. Se bem pensar, os últimos quinze anos têm sido uma constante de momentos em que os espaços onde estive sofreram mudanças drásticas e foram deixados, nos vários caixotes designados para o efeito, sacos e sacos de lixo e de lastro. Aprendi com o tempo que não podemos carregar todo o passado às costas, sob pena de não haver espaço para o futuro. Foi uma aprendizagem muito útil. especialmente por ter uma casa onde cabia eu e tudo o que arrastei durante anos, mas onde não havia espaço para um marido e um filho. A decisão não foi difícil, talvez pelos anos de treino em desapego, e entre eles e os objectos, ficaram as memórias e espaço para o que virá.

24/10/2017

Continuo a ler-te aos bocadinhos, nos locais que continuam a chamar-me para lá. São de excelência, sei que gostaste de quase todos. Só não me atrevo a ler-te inteiro -- basta a cada dia o seu mal.

11/10/2017

Pequenas descobertas

Gosto de mexer na superfície arredondada da minha barriga. Sentir os movimentos que aumentam de intensidade a casa semana. Dar suaves pancadas com dois dedos, dizendo baixinho seu nome, e receber de volta pancadas não tão suaves assim.

Gosto que as tuas mãos descansem na superfície arredondada da minha barriga. E que lhe dês beijinhos e o chames baixinho e ele reaja com firmeza.

São as pequenas descobertas dos nossos dias que vão mudando devagarinho. Nenhum igual ao outro.

23/09/2017

A noite

A noite traz o sossego,
a colcha fofa que nos cobre a pele.

Espalhamos o corpo e o amor pelos lençóis.

Damos as mãos, contra
o medo e a incerteza.

A noite traz a calma sobre
os nossos corações, nem sempre em
sossego.

08/09/2017

O mundo às riscas

Começaste por ser um insistente cansaço, acompanhado do sono que às 21h me prostrava. Depois, uma intrigante sensibilidade aos cheiros, especialmente os muito florais, que me deixava o estômago às voltas. Passaste a ser um «será?» desconfiado, confirmado nas risquinhas azuis daquela espécie de tubo branco. Foi assim que soubemos que eras mesmo, uma pequena existência que, como o vento, não víamos, mas começávamos já a sentir os efeitos. Enchi-me então da esperança de que te haveria de encher de laços e fitas e folhos com florzinhas miúdas; quebrarias o reinado másculo de ambos os lados da família e serias uma pequena princesa fofa nas nossas vidas. Trouxe-vos às duas, a ti e à esperança, todos os dias de espera até ao momento em que me deitei naquela cama estreita que enchia o pequeno espaço escuro, senti o frio do gel a arrepiar-me a pele, a pressão da sonda do ecógrafo na minha barriga e a tua imagem, pela primeira vez, projectada no ecrã em frente. Foi naquele momento, sem que ninguém mo dissesse, que vos perdi às duas -- contra toda a esperança, o futuro será feito de calções, riscas e muito azul. E eu mal posso esperar para que assim seja.



06/09/2017

Da relativa importância de pensar e falar por escrito

Estou a deixar este espaço morrer devagarinho. Não é por falta de assunto ou de histórias, que esses acontecem diariamente e com salpicos de surrealismo consideráveis. Também não é por falta de ter o que dizer, porque nunca falei tanto na vida toda, o dia inteiro. Talvez resida aqui o problema: o silêncio é uma realidade cada vez mais estranha, não há, pois, a necessidade de o fintar com diálogos mudos.

Depois, existes tu e nós. Nós, que começámos com dois e estamos em rápida progressão para sermos três. Essencialmente tu, meu confidente, aturador de neuras, porto de abrigo, pilar forte da minha vida, delicioso parceiro de aventuras, solucionador de 90% dos problemas que vão aparecendo pelo caminho, o meu amor imperfeitamente perfeito para mim. Tu, que reduziste o passado a uma memória longínqua e difusa, de importância relativa. Tu, que me deixas recados que me inundam os olhos e me dás a mão enquanto dormimos. Tu, que andas às voltas com parafusos, porque é preciso que a cama fique bem segura, e analisas exaustivamente as características dos colchões. Tu, que eu amo com um amor tão intenso e retribuído que às vezes dói. Tu, a quem eu posso dizer tudo, sem o deixar registado de outras formas.

Sim, vamos ser velhinhos, os dois, juntos!

03/08/2017

A primeira exposição

Ver acontecer a primeira exposição no espaço da Letra B é uma mistura de deslumbramento por finalmente haver coisas a acontecer e de um medo miudinho, por causa da responsabilidade que daqui decorre.
O Jorge Antunes (membro do USkP e do MoSK) tem um trabalho que cresce em valor por ser realizado em papel de palha de arroz, um projecto do Centro de Artes do Papel, em Montemor-o-Velho.

Estou felicíssima por o Jorge ter concordado em mostrar os seus desenhos e embarcar nesta aventura que vai estar patente durante um mês e uns pozinhos. A inauguração é dia 12 de Agosto e vocês estão todos convidados. 






Como bónus, podem apreciar reproduções de fotografias do Castelo em meados do século passado, parte da colecção privada de uma cliente que as quer partilhar com os outros. Depois, subam ao Castelo e vejam a diferença(ou vão lá primeiro e depois venham descobrir as diferenças).


30/07/2017

Vamos?



Ou é demasiado paradisíaco? ;)

21/07/2017

Atípicos

Não contámos ao FB a alteração do nosso estado -- o que nos pareceu o mais coerente, já que o mesmo desconhecia o que éramos, não havia por que ficar a saber o que nos tínhamos tornado. Esquecemo-nos que carregávamos máquinas de fotografar, pelo que há poucas provas dos sítios que visitámos, das refeições, dos mimos, de nós. Considerámos que a nossa lua de mel era nossa,  que não era preciso alardear o destino, muito menos perder tempo a actualizar estados que só a nós interessavam. Nem sequer usamos alianças iguais porque tu, na tua imensa generosidade, deixaste que escolhesse a mais brilhante. Não deixamos provas das nossa convivência, é quase como se não existíssemos. Mas nós existimos. Nos longos minutos gastos em conversas, nos regressos a casa e nas despedidas, nos pequenos segredos que se vão paulatinamente desvendando ao mundo, no que não é preciso dizer, num pé que se estica e encontra outro pé do lado de lá, nas gargalhadas e nos pequenos amuos, nesta vida que vamos levando. Pacientemente. Tão estranha, aos olhos dos outros.

Max Dupain,Stiff nor'easter 1940s