15/02/2017

Dia após dia

Não há como fugir. As responsabilidades estão todas aqui, à minha frente, a exigirem que as assuma e faça o que tenho de fazer. E eu assumo e faço. Faço tudo o que sei e vou inventando à medida que as horas avançam. Dia após dia é assim. Prefiro ignorar as vezes em que quase me fizeram desistir, as vezes em que desejei desistir, as vezes em que estive por um fio. Tem sido um peso difícil de carregar em braços e as promessas de ajuda não se cumpriram, porque há toda uma tradição burocrática que é preciso manter. Mas vieram mãos inesperadas a dar forma ao sonho. E vieste tu a combater a rotina dos dias com uma rotina nova, estimulante e apaixonada. O cursor pisca na folha parada, branca para a frente, à espera que a tua voz desvende todos os mistérios do meu mundo. Entre orçamentos e números de telefone, dizes que me amas e todos os números fazem de repente sentido. Falta pouco! Falta pouco!, dizes, embalando-me o medo, adormecendo a dúvida pequenina que insiste em sentar-se na beira da mesa. Dia após dia é assim. Porque falta pouco, falta realmente pouco. Tu prometeste.

14/02/2017

uma pérola no meio dos escolhos do passado

Pensei durante dias se hoje haveria de deixar neste espaço algum resquício do amor que te tenho. Por causa de ti, descobri o egoísmo e o afinco com que se guardam segredos. Não quero partilhar-te com o mundo, nem preciso. Pensei, por isso, durante muitos dias, se hoje, porque particularmente hoje é preciso que se diga o amor com cobertura de açúcar e embrulhado em celofane vermelho, dizia eu, se hoje seria assim tão importante escrever um texto que justificasse o silêncio que faço sobre ti. Considerei explicar que me salvaste do desterro emocional para onde tinha decidido ir. Pus até a hipótese de enumerar todas as vezes que me fazes rir e te indignas quando não me tratam bem e te espantas com as coisas que te digo e gargalhas com as minhas anedotas de gosto duvidoso e ouves pacientemente todas as minhas queixas e me dizes sempre a verdade, mesmo que machuque um bocadinho. Também ponderei divagar pelos quilómetros que percorremos a pé, pelos pequenos gestos e os enormes planos que temos para a vida. Depois decidi que não, não iria escrever nada, iria dizer-te tudo, tudo, tudo, ainda mais uma vez. Mas depois... depois eu vi o que me deixaste e um sorriso ocupou-me a cara e os olhos encheram-se de emoções e eu percebi que, mesmo sem dizer muito, precisava de deixar neste espaço - uma pérola no meio dos escolhos do passado - a verdade fundamental da minha vida: amo-te.

11/02/2017

Estado de espírito do dia

ver o pêlo da alcatifa crescer.


autor desconhecido

09/02/2017

I'll be there when you need me most

Be There - Seafret

08/02/2017

Hoje

Devia ter percebido quando vi a música escolhida para análise num determinado programa de rádio. Não o consegui ouvir, confesso, seria perturbar-te demasiado a memória, ainda que na minha assuma o forjamento. Devia ter percebido, mas não percebi. Foi mais tarde, quando os olhos poisaram discretamente no canto inferior direito do portátil, que a lembrança, como um raio, me sacudiu os ossos. Esqueci-me. A segunda vez num ano e eu esqueci-me. O meu maior medo, como uma sombra, já me engoliu os pés. Pelo menos guardei-te em livro.

07/02/2017

no final poucas coisas contam, talvez apenas três

e que no final poucas coisas contam, talvez apenas três:
com quanta paixão amaste, quão suavemente viveste
e com que elegância conseguiste deixar para trás
coisas que por fim soubeste não te serem destinadas.

José Luís Borges de Almeida, in Dédalo

06/02/2017

02/02/2017

A/C de Dá-me o prazer de entrar e sair em bicos dos pés

Essa personagem tão falha de ideias e poucochinha que, para sentir que alcançou alguma coisa na vida, precisa de se apropriar do que é dos outros. Podes continuar a roubar os meus textos, a publicá-los de enfiada quando não me deixas comentar, se dá sentido à vida. Lamento o vazio em que vives.



Quem vive entre as ervas, bicando pedrinhas, nunca voará.