24/08/2016

Ainda o sótão

Depois que fechou a janela, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, experimentou muitas formas de trazer de volta a luz aos seus dias. Comprou candeeiros, pintou sóis e céus nas paredes, vestiu-se de branco, para se sentir mais luminosa. Nada funcionou. Contra tudo o que tinha decidido, a rapariga que viva num sótão aproximava-se da janela, no exacto ângulo de antes, quando o homem que pintava céus se sentava no banco de madeira e pintava o que via, fechava os olhos e esforçava-se para mais uma vez o imaginar ali. Depois recriminava-se pela decisão imatura e afastava-se durante dias. Ao fim de muito tempo, quebrou outra promessa e rastejou por baixo da cama, à procura de uma caixa de cartão que tinha jurado não voltar a abrir. Na primeira vez que a abriu, quase se afogou nas lágrimas inesperadas que lhe correram dos olhos como rios excessivos. Já a lua ia alta a iluminar o sótão, quando a rapariga fechou a caixa e limpou as lágrimas. Passou um tempo comprido. Quando o céu fica mais negro, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, ainda abre a caixa de cartão escondida debaixo da cama (onde guardou restinhos de tintas, pincéis e esquissos), enganando a solidão com a lembrança do homem que pintava céus e já não mora ali.
De alguma forma, volta-se sempre às mesmas músicas, como se a vida não passasse de meras variações sobre os mesmos temas.