05/09/2012

Bar do acaso [porque a vida é feita de acasos]

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro

e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.


Rui Costa in "As limitações do amor são infinitas", Sombra do Amor Edições, 2009, p 26.


[continuas a fazer-nos (me) tanta falta]

6 comentários:

  1. Uma bela poesia. Mas nunca consigo fazer poesia sem que haja rima. Feita por mim, nunca me soa bem :)

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    1. Eu nunca consigo fazer da que rima, pelas mesmas razões. :)

      Sim, o Rui era um grande poeta, dos melhores que já li.

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  2. Belo e profundamente melancólico!

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  3. Eu vou ser muito sincera, eu não sou fã, de todo, de poesia.
    Principalmente quando rima, irrita-me.
    Parece que têm que pensar nas palavras que podem rimar para escrever e tentam dar sentido ao poema.

    Depois também há o facto de nunca me ter dado bem com as interpretações de poesia, na escola, principalmente.

    Mas por algum motivo (e sabes que já li mais dele) este... este está qualquer coisa! Absolutamente belo.

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