20/09/2012


Todos os dias, por volta da meia-noite, hora em que se deita, o quarto apaga-se, nas paredes dançam as sombras projetadas pelas luzes da rua que entram, sem pedir licença, pelos vidros das janelas de sacada, nuas de cortinas. Umas vezes, entrelaça as mãos sobre o abdómen, outras tapa os olhos com os braços ou cruza-os por cima da cabeça, o corpo estático, os olhos fechados, a audição a elevar-se acima dos outros sentidos – apenas ouve a música, o bater do coração e o seu respirar, no mesmo compasso da solidão. As horas passam-lhe numa cadência lenta, tão lenta que lhe levam a pele, lhe devoram os ossos, lhe queimam o sangue que lhe corre nas veias. O seu interior é em tudo semelhante a uma caverna escurecida, a profundidade de um monturo, onde goteja uma tristeza viscosa e espessa que o cobre com a sua goma lodosa. 

5 comentários:

  1. Belíssimo texto! Consegui identificar-me com ele ;)

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    1. É um excerto de um texto maior que talvez um dia veja a luz do blogue. :)

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  2. O anoitecer é repelto do acordar daquela parte do subconsciente a que temos acesso, mesmo não sendo suposto. :)

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