17/12/2012

A minha casa

Era altura de este texto ver a luz do dia. Assim se tece a teia com os fios da imortalidade.


Long Time - The Gift


'Cause they say home is where your heart is set in stone  
where you go when you’re alone 
Gabrielle Aplin, Home


Não sei o que vim fazer a casa. Não sei o que vim fazer aqui. Vim levada por um qualquer impulso de encontrar o que me falta e o que me falta és tu. Não posso não rir com este pensamento que é em si mesmo tão certo como esta necessidade de voltar geograficamente a este lugar e rio porque tentar encontrar-te na minha casa é como querer neve em pleno agosto.
Ainda assim, percorri os quilómetros que se intrometeram entre o lugar para onde fugi – de ti, do passado, de mim –, e o espaço físico que delimita a minha casa, a casa que moldei com as minhas mãos e onde desejei albergar-te. Não sei dizer por que caminho vim, por quem passei, quantas rotundas contornei. Não sei dizer o tempo que demorei, quantos carros me passaram, nem quantos passei. O negro da noite é tudo o que sei dizer. E a tua imagem em cada árvore, em cada estrela, em cada pedaço de alcatrão, em cada sinal, em todo o lado.
Subo a rua, remexo a mala, tateio o molho à procura da chave certa, introduzo-a na ranhura e sinto fugir-me das mãos a porta. Paro à entrada. Há um instante insano que me prende, me tolhe o passo necessário que me falta dar, me aguça os sentidos à espera que tu te movimentes. Ao instante de esperança louca, segue-se todas as vezes a desilusão. A minha casa nunca te viu, nunca te sentiu, nunca te cheirou. A minha casa não sabe a que soa o teu riso, nem te reconhece pela música, nem pela cadência dos passos.
Fecho a porta, poiso tudo o que trago no chão da cozinha, subo as escadas. E tu fechas a porta comigo, poisas o que trazes no chão da cozinha, sobes as escadas atrás de mim, segues para a varanda com vista para os telhados das outras casas, fumas um cigarro, paras o tempo. E eu paro contigo. Um instante que se suspende e onde se repetem todos os momentos do passado, uma pausa em movimento perpétuo, circulando por todas as memórias boas, polindo os momentos maus ou incómodos até ao sublime da saudade, escrevendo em vidros embaciados as intenções de futuro que hão de ter sempre a perfeição da irrealidade.
A minha casa é uma concha vazia, um somatório de paredes e chão e janelas e portas, divisões desprovidas de alma, de calor, de corpos respirando vida, transpirando vida, criando vida. A mesma casa que gerou muitas conversas, alguns risos, afirmações irrefutáveis, devaneios e muitos planos, está agora ornamentada com silêncio, mágoas e fragmentos do que te pertenceu e eu trouxe nos olhos e espalhei pelos espaços.
Continuo sem saber o que vim fazer aqui. A tua presença manifesta-se pela tua não presença, tu não estás aqui, vieste comigo. Sou eu que te levo para todo o lado, mesmo quando quero fugir de ti. Sou eu que guardo nas mãos os pedaços do que não foi e eu quis tanto que tivesse sido. Sou eu que te prendo, que te enlaço, que te teço na pele, que te fundo nas veias, que te respiro e imprimo em mim. Sou eu que tenho como futuro um pretérito mais que perfeito, porque o futuro não existe e foi vivido todo no presente que passou.
E o negro da noite cá dentro. E a tua imagem em cada parede, em cada luz, em cada pedaço de chão, em cada objeto, em todo o lado. E eu parada no cimo das escadas. E eu sem conseguir mover-me em qualquer direção que seja, para me perder de ti.
Fecho os olhos e ouço-te límpido e claro como se estivesses comigo. Chove-me nos olhos, chove-me por dentro; trovejam-me soluços que me estremecem, encharcam-me as lágrimas que a tua ausência chora; escurece-me os ossos a tristeza da tua perda. Estou tão cansada. Foge-me o entendimento necessário para alcançar o que vim fazer aqui, para discernir que impulso perverso me trouxe a este lugar, para determinar as razões que te tornam tão presente quando eu tenho feito tudo para seres passado.
Num mesmo momento, censuro-me, enfureço-me, choro de raiva, de saudade. Revolto-me contra a minha incapacidade de seguir um caminho que não este, de escolher partir sem remorsos, nem incertezas. Porque o coração pesa-me no peito e a minha mente é a minha pior inimiga. As coisas ganharam um tom desmaiado, afiguram-se-me fiapos de qualquer coisa antes grandiosa, têm pouco valor, menos sentido. Vejo-as desgastarem-se sem pena, as ruínas do meu mundo que compõem o caos em que me tornei. Limpo as lágrimas dos olhos, mas elas insistem em correr. Não deveria haver razão para tanto sofrimento, não deveria ser possível que alguém infligisse a outro tanto tormento. Eu deveria ter sido mais rápida a antecipar o dano que me causarias, negligenciei a minha intuição, ceguei-me propositadamente para os indícios que se espalharam à nossa volta. Agora o tempo segue o seu curso de se arrastar pelas horas e de me arrastar com ele. Afogo soluços teimosos e cedo perante o inevitável que é a falta que me fazes.
O tempo continua parado. A minha casa está vazia. Eu estou vazia.
Tu não estás aqui.

8 comentários:

  1. Sublime.
    Quem disse que a Melancolia não encerra Beleza?

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    1. Alguém que nunca se sentiu verdadeiramente triste.

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  2. https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=P7mHf-UCZp0#!

    Mais ou menos isto.

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  3. A tua tristeza tocou-me, ou terá sido a tua escrita?
    Fosse lá o que fosse, curvo-me em sinal de respeito.
    Quem escreve assim, merece ser feliz.
    Bem hajas!

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    1. Continuo a ter muita dificuldade em ver 'escrita' neste texto, ainda é demasiado biográfico.
      Hoje foi dia de prantear, por isso resgatei do isolamento esta espécie de carta/conto/desabafo cuja data em que foi escrito de repente me assustou. Um dia o tempo psicológico e o cronológico hão de fazer as pazes.
      Estou outra vez a escrever coisas incompreensíveis. Vivo sob o signo do barroco, por mais que queira a época das luzes. Desculpa.
      Obrigada pelo teu respeito, para mim, mais do que pelo que escrevi, é por quem o inspirou.

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  4. :)
    Consegui sentir que o escreveste de coração nas mãos.

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    1. Arrependo-me constantemente de o ter publicado. Cada vez que bato com os olhos nele, é como se voltasse àquele momento particular. Por outro lado, acho que fiz bem, exorcizei o meu medo.
      :)

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