31/12/2013

30/12/2013

Caro 2013

no início das tuas horas, pedi-te que me deixasses saudades. Não cumpriste integralmente o pedido, mas não me posso queixar. Houve dias tristes, outros muito tristes, dias em que pensei arrumar as botas de vez e dias que compensaram os outros todos. Deste-me horas que valeram semanas inteiras e deste-me céus novos, outro chão para andar, uma nova forma de entender o mundo. Chegaremos ao fim do dia 31 em paz, despedir-nos-emos com cortesia e alguma ternura.

Quando te cruzares com 2014, dá-lhe a lista que te dei, com tudo aquilo que desejo, e avisa-o para ser gentil comigo.

I wonder...








I wonder why it is
I wont let my guard down
For anyone but you
We do it all the time
Blowing out my mind
Like a star - Corinne Bailey Rae

28/12/2013

Quando eu penso que já esqueci tudo

Outra vez te sentas à minha frente, olhando duvidoso a pizza de atum e frango que tu mesmo tinhas pedido. Não era a melhor das combinações, embora à partida tivesse parecido que sim, mas até estava boa. Submergias-te no tinto do copo e perdias-te no mar à tua esquerda, sem que eu tão-pouco sonhasse que te preparavas para partir, para nunca mais voltar.

27/12/2013

A minha vida dava uma banda sonora #17

Porque eu acabo sempre por ir, deixando para trás as coisas que foram, as pessoas que estiveram. Porque eu acabo sempre por largar as malas e tudo o que sobra são bolsos cheios de recortes de memórias, cacos de existências, peças soltas de um puzzle maior.


Terminei indo - A Banda Mais Bonita da Cidade


Eu já sei caminhar em tantas nuvens
E posso visitar de vez em quando o chão
Do alto do parque, por cima das árvores eu vejo você

Antes de bater o vento eu já pensava em voar
Antes do sol clarear eu desapareci
Por cima dos prédios, estrelas vermelhas não brilham no céu

Eu sou das ruas de qualquer lugar
Existo sempre que você pensar em nós
Não tenho tempo pra guardar recordações

Mas o tanto que eu levar de você
Eu deixo um pouco pra me misturar
E não descanso pra você dormir

26/12/2013

É uma música de Natal tão boa como outra qualquer




Conselho de amiga: Evitem a coreografia depois do almoço.

24/12/2013

A um passo do Natal

No Natal, há quem prefira acompanhar a Mariah e espalhar os desejos natalícios a um ritmo dançante. Eu prefiro guardar para mim a vontade de voltar a casa, uma casa que fosse outra, com aromas e ritmos mais meus e um concreto par de sapatos espalhado com os meus saltos altos.


Mais uma vez, os enfeites da árvore cá de casa são as estrelas dos meus postais.

19/12/2013

Correspondência íntima - XV

Talvez até vivamos mais na ilusão - o passado é uma fabricação da memória e o futuro uma fabricação da vontade. Já o presente acontece demasiado depressa para se conseguir situar.

18/12/2013

Universo feminino

Pois há menos peixinhos a nadar no mar,
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Perto dos meus braços os abraços hão-de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é prá acabar com esse negócio
de você viver sem mim
Chega de saudade - Tom Jobim & Vinicius de Moraes

17/12/2013

É quase Natal outra vez

Lentamente foram deixando de aqui vir, à tua procura. A curiosidade dos primeiros tempos cedeu perante a passagem do tempo e o desvanecimento da memória - não o leves demasiado a peito, o mundo ainda não aprendeu a arte de se silenciar e ignorar as muitas solicitações. Melhor assim, nunca gostei de te ver em pedaços pelo mundo repartido, um nome abstracto a enfeitar um espaço, qual bibelô de loiça a quem não reconheceram a alma, só a função decorativa. Mas eu sei onde anda o rasto dos teus passos por aqui e evito trilhar esse caminho, como tenho evitado ler alguns livros, tocar objectos, lembrar-me demasiado. Tenho uma mala cheia de pequenas saudades que vou colhendo periodicamente, como Blimunda recolhendo as vontades, na esperança de fazer voar até esse sítio, onde estás e que eu tenho medo de definir, todas as conversas que deixámos a meio e as respostas que não sabia e as perguntas que ainda me arranham a garganta. 

Foi com uma certa graça que descobrimos ter um computador igual. A mim morreu-me o portátil, ao teu portátil morreste tu. A vida, às vezes, tem excesso de literatura.

E é quase Natal outra vez.

15/12/2013

Chamem-me Alberta

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

10-7-1930
O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
  - 100.

12/12/2013

Natureza humana

Tenho uma casa plantada no peito, com um gato branco lá dentro. O gato continuará largando eternamente os pêlos brancos que se não esquecem, tão imaterial e distante como quando pulava para me morder a barriga das pernas.

M. J. Marmelo

Oh! pra este blogue a querer ser mainstream


11/12/2013

Natureza humana

Essa era a puta da verdade:
estava só e fodido
e costumava pensar que lhe restava pouco tempo.

Devoção de Roberto Bolaño, trad. Francisco José Viegas

10/12/2013

Como me sinto hoje?

Liliana Lourenço

em canais de vontades
em lagos de rememorações.

08/12/2013

06/12/2013

Em silêncio respeitoso

Porque o muito falar é tolice.



Nelson Mandela 1918 - 2013

30/11/2013

Cartas para o meu futuro - 2

Caro Futuro,

Não sei quando lerás estas cartas, fiz um cálculo mental de trinta anos, o suficiente para que sejas já uma reformada enxuta, ainda com a cabeça cheia de projectos megalómanos e uma considerável dose de inocência. É, talvez, um cálculo a pecar por defeito – se te quiser apanhar no estado da reforma, é melhor que aponte para daqui a quarenta anos. Se não for mais.

Independentemente da altura em que leias isto, é importante que conserves uma das poucas certezas que me posso gabar de ter alcançado: do passado não guardo mágoas.

Às vezes, encontro bocadinhos do passado por aí, fiapinhos digitais que vão ficando presos nos espinheiros virtuais em que circulamos. É inevitável, por onde passamos deixamos um rasto e, se alguém tiver paciência que chegue, todos os nossos passos podem ser refeitos.

Confesso que já os procurei, fui eu mesma à procura das pegadas marcadas no chão que certos passos costumavam pisar; na maioria das vezes, acho-os, como fósseis solidificados, pequenas reminiscências à espera de ser encontradas. Ultimamente, parece que não faço mais do que tropeçar neles.

Sinto, então, uma ternura muito grande, uma saudade incompleta, uma exclamação: «olha, o meu passado!». Fico assim algum tempo, perdida nas coisas boas, que as há sempre, sem esquecer as menos boas, que também abundaram.

Não que queira voltar àquele tempo, àquelas pessoas – não quero – só não posso ignorar que hoje sou o somatório de tudo o que vivi, que foram aqueles tempos e aquelas pessoas que me moldaram neste mulher que escreve.

Peço-te, por isso, que sejas sempre delicada com a lembrança do que deixaste para trás, que te lembres de todos e os guardes com ternura, e te lembres de mim como alguém a quem falta percorrer trinta ou quarenta anos para ser como tu.


Do passado não guardo mágoa. Nunca te esqueças. 

Sábado preguiçoso

Nem por isso.
Onde é que anda a minha lista de tarefas?


29/11/2013

Rituais pré-escrita

Se eu perguntasse quais os vossos rituais antes de começarem uma tarefa, éramos capazes de ter aqui assunto para umas conversas engraçadas. Mesmo que não pensemos muito nisso, acredito que todos temos umas quantas manias ou rituais pré-tarefas. Os escritores são conhecidos por terem muitas e estranhas, as estrelas da música não lhes ficam atrás.

Eu, que não sou nem escritora, nem cantora, assumo que tenho os meus tiques, sempre que abro uma folha no Word, para começar a escrever: ter o espaço arrumado, principalmente a mesa de trabalho; estar eu mesma arrumada; uma manta e uma garrafa de água; os óculos e música. Não uma música qualquer, mas duas músicas em particular. 

Qualquer que seja o tom do texto ou a finalidade dele, tenho comprovado vez após vez que flui com maior naturalidade se estiver a ouvir «Dream is Destiny», mais do qualquer outra, e «I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless», de preferência com os auscultadores. Acompanha-as uma carga emocional acima da média e estão ligadas a alguns dos textos mais difíceis de escrever, mas são sempre a escolha primeira.

Manias!


Dream is Destiny  - No Clear Mind


I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless - Hungry Ghosts

28/11/2013

The Pirate's Gospel

Aproximam-se dias difíceis, parece-me. Está na altura da tripulação se juntar e cantar (alguém que procure o Álvaro, que desta ele não se safa) -- pode ser que assim evitemos males maiores.

Alela Diane - The Pirate's Gospel

We're gonna sing
The pirate's gospel
We're gonna chant
The pirate's gospel
You'll find us clap
The pirate's gospel

Yo ho yo ho
Yo ho ho
Yo ho yo ho ho
Yo ho yo ho
Sing the pirate's gospel
Sing the pirate's gospel 

27/11/2013

Dias assim

Está frio. Na rua sopra uma aragem cortante que me faz cerrar os olhos e me maltrata as bochechas. São sensíveis as minhas bochechas, pouco menos sensíveis que o meu coração, muito mais sensíveis que as mãos que se escondem nos bolsos, à procura de uma brasa quente. Está frio. Evidência redundante, olhando o calendário que me diz que Novembro exala os últimos suspiros, em pequenas baforadas de calor que evaporam ao ar. As frentes frias varrem as extensões que ousam atravessar-se no seu caminho, querem deixá-las para trás das costas, como seres mínimos, congelados na rotina de cigarras pouco precavidas. O chão está escorregadio, é preciso cuidado para não escorregar – o chão oferece pouco conforto em dias assim, ainda que seja o único capaz de verdadeiramente nos amparar nas quedas. Os casacos não travam a extinção do calor, o afastamento do ardor do corpo; enrolo fios de lã entrançados, no pescoço, subo a gola e resisto.


Está frio. Ainda assim, há um pensamento insistente que me aquece, como o crepitar recorrente da lareira, como uma manta quente, o chá a ferver. Esse pensamento leva-me a dias menos frios, a lugares menos expostos, a horas mais tardias, a um consolo da alma. Viajo à boleia da memória e sorrio, enquanto caminho – é um vício que tenho e espanta quem passa por mim, vejo-lhes os olhares agudos e sorrio ainda mais. É um desejo de multiplicação desse momento que me repassa os ossos: a aproximação tímida, um certo medo, uma ousadia, a prisão dos braços, o descanso das bocas. 

26/11/2013

Correspondência íntima - XIV

Sempre foste ótima nessa arte de dissimular o que te vai na canalização emocional. Junte-se a isso a minha eterna dislexia no que diz respeito à leitura de emoções alheias e percebe-se facilmente porque é que não acerto uma. ;)


Qualquer epístola que contenha a expressão «canalização emocional» tem, por força, de ser dada à estampa.

O calçado português

ganha prémios, é do mais caro do mundo e escolhido pela Rihanna, mas nem assim consegue fazer meia dúzia de pares acima do 41. Bem que eu gostava de saber onde é que desencantam os sapatos de salto que vejo os homens calçar em produções de moda, cinema ou teatro. E não me venham dizer que os homens calçam números pequenos - aquilo tem de vir de algum lado. 

25/11/2013

Quem isto ouvir e contar, em pedra se há-de tornar

Quem isto ouvir e contar, em pedra se há-de tornar.


http://www.eumof.unic.ac.cy

24/11/2013

22/11/2013

Cartas para o meu futuro - 1

Caro Futuro,

li algures que conversar consigo mesmo é um sinal de loucura em fase inicial. Também tenho a impressão de que é vício dos professores falarem sozinhos, em monólogos, que dificilmente chegam a ser diálogos, com a consciência. Agora que penso nisto, tenho a vaga ideia de alguém mo ter dito. Se li, se mo disseram, não tem relevância alguma, a questão principal é que falamos em voz alta connosco mesmos e isso pode não ser lá muito saudável – por via das dúvidas, decidi escrever-me.

Bons parceiros de diálogo são tão difíceis de encontrar como uma casa com acabamentos de topo, vistas fantásticas, no melhor sítio da cidade e a um preço para amigos – a menos que se tenha um amigo empreiteiro, e mesmo assim é de desconfiar, «não há almoços grátis» – e eu, confesso, tenho fases de grande cansaço em que não me apetece ter de explicar mais uma vez por que razão tenho a mania das organizações, medos que só a custo confesso e os motivos por que fui deixando de existir em tantos contextos. Pode ser só preguiça minha.

Seja lá por que for, conto por metade dos dedos de uma mão o número de pessoas com quem realmente converso… aqui num parêntesis, estou mesmo a ver à minha frente uns quantos pares de sobrolhos franzidos a pensar «se não falas, é porque não queres» e tenho de lhes dar razão…

É inquietante a consciência da galopante solidão acompanhada em que estou a mergulhar. Não de repente, antes como se de areias movediças se tratasse. São as pequenas indiferenças, as pequenas desconsiderações, os pequenos esquecimentos, os pequenos fingimentos, tudo muito subtil, muito inocente, muito na famigerada maldade de quem interpreta as coisas mal.

Li certa vez que um cônjuge não deve encarar o casamento como uma relação parental em que o outro é uma espécie de filho que tem de educar e orientar, sob pena de o cônjuge-filho vir a sofrer daquilo que todos os filhos sofrem – o desejo de fugir dos seus pais. Devo ter sido uma espécie de mãe para muita gente, é natural que ao atingirem a maioridade emocional queiram ir correr mundo, ver a vida, pintar a cana verde, fazer trinta por uma linha, tudo menos perderem tempo com a «progenitora».

Este intróito tinha um sentido… devia ser o de justificar o título – tem sempre de se justificar o título, não é?, «em que medida o título aponta para o sentido geral da obra?» –,  já que não posso chamar a isto tão só Ideias verdes em folhas rosa choque, o que é uma pena! Uma lastimável pena.


Posto isto, funcionarão estas cartas como reflexões avulso do eu que sou hoje, dirigidas ao eu que serei num dia qualquer do futuro, que espero seja longo. No fundo, são criancices pseudo-literárias, não vejo já grande margem de progressão para a minha personalidade. A menos que me torne um pouco mais calada, um pouco menos interessada, um mais ou menos descaracterizada.

21/11/2013

R.I.P, Rimas Imperfeitas

Há dias em que acordamos e tomamos decisões que nem sabíamos querer tomar. Foi isso mesmo que aconteceu hoje, embora a ideia já andasse a rondar há muito: as Rimas Imperfeitas despediram-se da blogosfera e foram substituídas pelos Cais das Letras.
Salvo o nome e o cabeçalho, mantém-se tudo igual -- dos poemas às imagens, passando necessariamente pelos melhores leitores do mundo que me dão a enorme honra de me ler e comentar.
A ver vamos como corre a viagem.

Caro dente do siso

Se vieste trazer-me o juízo, chegaste irremediavelmente atrasado.

20/11/2013

São os implícitos, senhoras, são os implícitos

http://badengagementphotos.tumblr.com

À boleia de um post do João Miguel Tavares, estou há uma boa meia-hora a ver fotos de noivado. Todas terríveis, assim é suposto. No meio de todo o kitsch e saloiice, há um tema que me tem feito pensar. 

Pode parecer muito cómica, até tragicómica, a mensagem da imagem (bela cacofonia) que vos deixo. Para mim, não é e pode dizer muito da forma como se encaram relações e principalmente casamentos. 

«Ele roubou-me o coração e eu roubei-lhe o apelido»? A sério que é esta ideia deslavada que querem passar?, que tudo se resume a uma mudança do estado civil e um acrescento aos apelidos? Será que as alminhas femininas não alcançam o cinismo da afirmação? É que o sexo forte e tradicionalmente bruto até assume uma dose de romantismo apreciável - podiam tê-las deixado roubar a pureza, as pratas da mãe, os brincos da avó, mas não, deixaram-nas roubar-lhes o coração. Já elas estão mais interessadas em roubar-lhes o estatuto social.

Talvez seja assim que as relações se processem e até explique muito coisa, como o meu inalterável estado civil.


19/11/2013

A imensurável medida das coisas

Quanto mede um palmo? Quanto mede a distância daqui para aí? Quanto mede a felicidade? E o amor? Talvez nada disto se meça, talvez só algumas coisas se meçam. Será ao peso? Em medidas pré-estabelecidas ou a granel? Como se quantificam as coisas que realmente importam? E por que há-de ser tão necessário saber valores exactos? O pai e a mãe pesaram o mesmo na balança dos afectos? Porquê a necessidade nauseante de saber de qual se gosta mais?

Qual o volume do coração? E do medo? Vale mais uma dúvida ou uma esperança? De que são feitas as certezas – e por que não podem ser feitas de nuvens e algodão? Como se pesa a saudade? E as cerejas? A balança velha da avó perdeu alguns pesos e a cor vermelha, tem agora muitas lascas e muitos quilos de cerejas pesados. Algumas maçãs. E muitas dores na alma.

Como se aproxima o norte do sul? E as duas margens do rio? Porque é que do perto é tão fácil fazer longe e o contrário custa mais? Como se cose um botão? E quais os melhores fios, para tecer uma teia durante vinte anos? E por que não montou Ulisses o cavalo, para chegar mais depressa a Ítaca? Porque é que o tempo passa depressa quando estamos bem e o amanhã nunca mais chega, quando estamos com pressa?


Por que razão as noites são tão tristes e os dias tão faltos de presença? Por que razão, as perguntas não acabam e as respostas nunca são suficientes?

Acordar com um gato

é coisa para deixar ambos bastante contentes.


18/11/2013

17/11/2013

Palhaços!

E não é sequer um elogio insulto.



Com os animais habituais
Tem outros tais, bem especiais
São lobos, cobras, lagartos
Palhaços ricos e fartos
Artistas nas faces das revistas
De pés pró ar e vice-versa
Ilusionistas bem malabaristas
Balões de ar e de conversa

15/11/2013

Eles comem tudo

Vampiros - Nicolas Jaar e Gisela João - Lux (Lisboa)

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada 

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Zeca Afonso

Esta noite morri muitas vezes

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma,
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome -- essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral, em Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Coord. Pedro Mexia

14/11/2013

Natureza humana

As mulheres em particular são engenho de multiplicar homens, são todas feitas de bívios as mulheres, artistas de povoar mesmo sem prenhez, basta-lhes falar ou ser, no resto pensam eles: falo-lhe ou não lhe falo? Beijo-a ou não beijo? São irremediáveis e estúpidos os homens, se se aguentam na vida é mais por privilégios de género do que por competência, os homens são idiotas carregados de sementes.



As mulheres belas podem ser becos e as feias também. Ruas estreitas onde enfiar sob o risco de não sair nunca, porque as mulheres não se acabam. Todas as mulheres são autoras discretas, responsáveis por maridos, filhos, amigos e solitários.

Nuno Camarneiro, No meu peito não cabem pássaros, p. 179 e 180

13/11/2013

Belzebu anda à solta na aldeia. Outra vez.

12/11/2013

Percorrer a avenida entre o relógio e a rotunda dos pescadores exige um esforço da memória superior ao esforço do corpo, para fazer corresponder todos os espaços vazios às lojas que os ocuparam.

11/11/2013

Piratarias à socapa

À revelia da capitã do navio, da última vez que lançámos âncora, fiz umas investigações por contra própria. Receio que a tripulação escolhida não seja tão vil quanto os currículos e as cartas de recomendação fariam supor. Por isso, quando o rum tinha já tomado conta da cabeça e da vontade dos meus companheiros, aventurei-me pelos becos escuros das docas.

A animação inicial deu lugar a um estado de irritação que aumentava consideravelmente. As minhas investigações apenas me tinham feito encharcar a roupa, uns trapos a que meti a mão numa das vezes que nos aproximámos de terra o suficiente. Não me agradava a situação, para mais depois da barrela a que a capitã nos tinha forçado, por ter assumido que a sua condição de líder valia, por si só, para nos usurpar a piscina e enegrecer por fora, num tom que desconfio aquém do tom com que estamos pintados por dentro.

Nem ouro, nem um diamante sequer, quanto mais um zircão, nem um vestido novo, muito menos umas botas menos gastas, vislumbrei. Naquelas docas escuras e húmidas, só se encontravam barris, cordas velhas, pedaços de pau e, claro, o perfume do peixe e dos homens que não se lavam há muito tempo.

Foi então que o vi, encostado a uma parede, fumando um relaxado cigarro, enquanto teclava no ecrã do telemóvel de última geração – confesso que fiquei surpreendida por ver um pirata tão conhecedor da tecnologia de ponta, mas depois lembrei-me do tablet que escondo de todos, debaixo da almofada, para ir actualizando o perfil do facebook e o mapa dos lugares visitados, e considerei que era grande hipocrisia o meu espanto. De qualquer das formas, aquele pirata parecia-me um espécime superior quando comparado com os decadentes, feios, porcos e maus com quem viajava.

Não sei se por excesso de literatura, se por uma excitação fora de série, abordei o estranho, num passo de mulher fatal, retirando-lhe o cigarro e aspirando profundamente. Teria resultado, não fosse eu ser uma não-fumadora, logo, inábil no jeito a dar ao cigarro e ao fumo que me intoxicava os pulmões. O que se passou a seguir não foi propriamente bonito, nem creio que faça parte dos livros de pirataria, mas o ataque de tosse que me atingiu, quase resultou na minha morte – destino ingrato para quem deixou o trabalho que não tinha e a existência parda, para conquistar os mares e ser má. O pirata usurpado do seu cigarro estaria, talvez, habituado a abordagens do género, tendo prontamente iniciado uma reanimação boca-a-boca que, como seria de esperar – visto que um homem é sempre um homem, com a agravante de este ser corsário – levou a coisas que a decência me impede de mencionar.

- Vem comigo para o barco – pedi-lhe, em loucura apaixonada.
- Não posso!
- Não sejas cruel – pestanejei com tímida mágoa, a ver se o quebrava na vontade férrea.
- Sou um pirata, é da minha natureza ser cruel.
- És tudo o que precisamos lá no barco. Que eu preciso!
- Não vou. Agora, não, que joga o Benfica.

E assim me deixou, nas docas escuras e a feder a peixe podre e rum de má qualidade, afastando-se em passo certo, cigarro no canto da boca, em direcção ao café, com a Benfica TV.

Por mil cobras e lagartos!, aquilo não ficaria assim. Com toda a violência do despeito, procurei o barco daquele pirata. «Hás-de pagar-mas, pirata!», murmurei, enquanto tentava decifrar pelo cheiro do cigarro qual seria o barco certo. Com mil diabos, os barcos cheiravam todos ao mesmo – mal, muito mal –, daí que tenha acabado por perguntar ao guarda-nocturno. O homem foi gentil, ou então era o meu decote que lhe despertava sentimentos gentis, e lá me disse qual era a embarcação.


Com uma gargalhada maligna, soltei as amarras do barco e naveguei-o, cortando ondas, velas içadas, iluminada pelo luar, até aos meus companheiros. Não sei como vou explicar onde o desencantei, mas como piratas que todos somos, admitir que o roubei deve chegar como justificação.


Agora, só falta encontrar um forte onde descansar. Os meus ossos precisam urgentemente de uma cama fofa e eu preciso de um banho de espuma.





P.S.: Todas as fotos são minhas e foram tiradas propositadamente para ilustrar o Projecto de Pirataria. :D

10/11/2013

A minha vida dava uma banda sonora #16

É necessária uma certa maturidade que vem com a ainda mais necessária passagem do tempo, para que algumas músicas façam sentido e outras deixem de o fazer. É a flutuação na hierarquia musical que lança para o fundo da tabela as que foram líderes indiscutíveis e traz para o pódio as que, por muito tempo, estiveram abaixo da linha de água.



Ouço uma voz ao fundo
Que me jura existir
Mais que um amor no mundo

09/11/2013

A cabra solitária


Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1960
Legenda Pastor e cabra
Cota DFT7905 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME @

LA CAPRA

Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d'erba, bagnata
dalla pioggia, belava.

Quell'uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno,
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.

In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.

Umberto Saba


A CABRA

Falei a uma cabra.
Estava sozinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, berrava.

Aquele berro monótono era fraterno
à minha dor. E eu respondi-lhe, primeiro
por brincadeira, depois porque a dor é eterna,
possui uma única voz e não varia.
Esta voz ouvia
gemer numa cabra solitária.

Numa cabra de rosto semita
ouvia o lamento de cada mal,
de cada vida.

Tradução minha

Universo feminino


Eu quero guardar teu beijo
Na concha das mãos
Teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
Que eu não lavo, não

Sou alvo pros teus olhos claros parecidos
Com essa estação
E adoro os efeitos sonoros de quando você sussurra
Absurdos no ouvido do meu coração
«Se eu corro», A Banda Mais Bonita da Cidade

07/11/2013

House of no regrets

Sei que o conceito casa está em mim muito enraizado, não só enquanto espaço físico, mas como sinónimo de abrigo, família. Sei também que tenho a necessidade, até há pouco tempo inconsciente, de planear, organizar, arrumar o meu espaço, como forma de me arrumar por dentro. Por isso, a minha casa tem sido um projecto meu - bastante imperfeito na sua execução -, como aplicação prática da metáfora da criação do ninho: pintar, arrumar, restaurar, todos estes trabalhos têm passado pelas minhas mãos e, na verdade, não era capaz de substituir os objectos que lá tenho por outros novos, mas impessoais. É também por isso que vou resistindo a abrir as portas a terceiros, pelo menos, não pelo tempo mais do que suficiente para que a conheçam, sem a conhecerem.

Veio esta divagação a propósito de ontem ter esbarrado com esta música da Dulce Pontes, incluída no álbum Focus que gravou com Ennio Morricone, em 2003.

É uma boa definição de casa. A diferença está nos muitos arrependimentos que guardo nas gavetas e nas prateleiras.


House of no regrets - Dulce Pontes e Ennio Morricone


The house where I was born still stands for who I am
Every stone laid is a bridge made to my past

The house where I grew tall towers over me
Shadows bring everything back in soft light
I wouldn't change yesterday, not in my life
And so I live in a house of no regrets

There are many rooms inside my head
Corridors that wind through time, never end
They are journeys meant to be
Every house is part of me

The house where I found love lingers
Sends me shivers, like the first time
Stairways I climb to the heights

The house where I grow old will be free of ghosts
From what I've done, I won't run, come the dark night
I wouldn't change yesterday, not in my life
The years show, I've lived in a house of no regrets

Regressa-se à casa azul

A guardiã da rua é a casa do fundo – a casa da Maria. Um jardim seco, composto a espaços por tufos de plantas medicinais que a dona utiliza em unguentos, remédios e chá, separa o alcatrão da casa da fachada azul, como um fosso à volta de um castelo. Dificilmente o dia rompe a escuridão que se abateu sobre a casa, um negrume de floresta amaldiçoada que assusta a vizinhança e deslumbra Catarina.

06/11/2013

Que dizer das que estão um ano sem lá ir, como eu

Medusa (de Arnold Böcklinc.1878).

4 _ «Nunca fui de grandes interpretações simbólicas. Só consigo encontrar um significado psicológico no mito da Medusa: é mostrar a ansiedade da mulher que já não vai ao cabeleireiro há mais de duas semanas.»
(Malgorzata Zajac)

em Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal, p. 73

Assim se explica o meu súbito emagrecimento

A verdadeira gordura é passado que não se liberta, que não retorna ao mundo e fica encafuada no corpo, sólida, densa, nos quadris, nas coxas, nas articulações. É por isso que os velhos têm dificuldade em mexer o corpo. Estão carregados de passado nos ossos, nas rótulas, no espinhaço, na cerviz. Tudo calcinado por ontens. Quando o homem liberta as suas memórias, pela palavra, fica leve [...]
(Tal Azizi, Discursos)

em, Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal, p. 25

Natureza humana

ADÃO SAIU PRIMEIRO DO PARAÍSO
«A sua passada era maior do que a da mulher, uma questão antropométrica. Por isso saiu ligeiramente à frente de Eva, que tinha passinhos pequeninos, delicados. O segundo a mais que Eva se demorou no Jardim é responsável pela beleza redonda das suas formas, sem grandes pilosidades, tal como os anjos e as crianças. Um segundo a menos no Éden, e Adão saiu cheio de pêlos no peito, um grande bigode turco e um profundo amor pela sua equipa de futebol.»
(J. Dameron, Primeiro Segundo)

em Afonso Cruz, Enciclopédia de Estória Universal

05/11/2013

Ler em fúria

Estava no primeiro ano da faculdade quando precisei de ler O Alto dos Vendavais. Como as leituras eram muitas e diversificadas, reservei-lhe o dia livre, para ter tempo de ler, talvez saltar umas páginas, traçar linhas de leitura que me parecessem relevantes. Lembro-me perfeitamente de o ter lido com um nível de irritação bastante alto - várias vezes o pousei, reclamei com as personagens, me levantei e fui fazer um chá, e voltei à leitura. Naquela quinta-feira, não houve mais texto que me ocupasse as ideias, só aquele e uma raiva permanente com Heathcliff, aquele homem soturno e mau.

Do lado esquerdo do computador, descansa O remorso de baltazar serapião. Experimento uma sensação semelhante - uma irritação, quase nojo, que me faz fechar o livro a meio de frases, contar até dez e retomar a leitura. São odiosos os homens Sarga. E eu não consigo deixar de me inteirar das suas vidas.

Tudo é ridículo, até os e-mails de amor

Todos os e-mails de amor são
Ridículos.
Não seriam e-mails de amor se não fossem
Ridículos.

Também escrevi em meu tempo e-mails de amor,
Como os outros,
Ridículos.

Os e-mails de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículos.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
E-mails de amor
É que são
Ridículos.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
E-mails de amor
Ridículos.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Desses e-mails de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).


04/11/2013

Dúvida que me atormenta

Não sei se inclua O Guião da Reforma do Estado, que dá pelo sonante nome Um Estado Melhor, no rol dos livros lidos do Goodreads. Até porque não sei se o incluiria nos livros históricos, ficção, fantasia ou terror.

02/11/2013

Hoje, a campa dos mortos encher-se-á de flores. E aqueles que estão sepultados em mim, onde lhes ponho as flores?

Universo Feminino

É com frequência que encontro um eu que desconheço. Com maior frequência me desencontro do eu em que me reconheço.

01/11/2013

Expectativas irreais

Criámos para nós metas que só alguns escolhidos, pelo quê ou por quem depende de cada um, atingiriam: aos trinta, deveríamos ter emprego estável, bem pago, aliciante, se possível na chefia; uma casa e uma família em construção; um carro de cilindrada considerável e férias a sul ou no estrangeiro.
Criámos para nós estas metas, mas porque tantos falharam, tornámo-nos mais permissivos e apontámos o sucesso para os quarenta.

Universo feminino

A esperança anuncia-se pelo telefone.

Freud explicaria?

Sei que estou demasiado preocupada com a situação quando passo a noite inteira a sonhar com gatinhos que são atacados por gatos adultos e que falho sucessivamente em salvar.

31/10/2013

Por gentileza, caros leitores

Cliquem aqui.
Agora procurem a página 58.
Leiam até à página 61.
Depois contem como foi.

29/10/2013

Escrevo-te com o fogo e a água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.



António Ramos Rosa
Volante Verde 
Moraes Editores - 1986

Afinal não sofro de marasmo

«O assunto é simples: o autor da Divina Comédia sofreria de narcolepsia, um estado neurológico caracterizado, sobretudo, por sintomas de sonolência e distanciamento.»


Francisco José Viegas, «Ler Ramos Rosa», in Ler, nº 128, pág. 5, referindo um estudo do professor Giuseppe Plazzi.

Sou uma péssima seguidora de blogues

Eu, rapariga honesta para além de simples, me confesso: sou uma terrível seguidora de blogues.
Não sei que me aconteceu, talvez tenha a ver com excesso de cafeína ou mais um cabelo branco descoberto por estes dias, mas quase não comento os blogues que sigo. Se é certo que nem todos os textos me impelem ao comentário - quer seja por uma questão de gosto pessoal, fraca identificação com o assunto ou preguiça -, outros há que me fazem ler, pensar, repensar-me e emitir opiniões. Só que estas estão a ficar arquivadas na minha memória e não tanto na vossa caixa de comentários. E eu leio! Garanto-vos que leio tudo, mesmo que não recebam visitas minhas (não sou de intrigas, mas a culpa é do Feedly), e sinto uma espécie de sentimento de culpa - a mesma que estou a tentar expiar nesta assumpção pública da minha falha -, tudo porque sou honesta. Para além de simples, claro está.

28/10/2013

Coração agrilhoado

Vou assaltar um banco, por amor,
que o meu amor é muito grande
e exigente, não se contenta com
uma cabana, nem com um chá
e bolachinhas.

Vou assaltar um banco, por amor,
que o amor «tudo sofre, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta».
Tudo se lhe perdoa.
Para pena, já bem basta a do coração.

Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo!




Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Martin Codax, CV 884, CBN 1227




O «ide» tinha de vir de algum lado

Há quem se lembre de todos os filmes que viu, dos discos que ouviu, dos pintores maiores de cada movimento, dos escritores que fizeram escola, de versos soltos dos poemas que são substrato de muitos outros, de nomes de actores e pormenores que atestam indiscutivelmente a sua sapiência e elevado nível cultural.

Haver, há. Para grande pena minha, não me incluo neste rol. Os nomes fogem-me com a mesma rapidez das árvores, quando o comboio passa por elas; escoam-se como água no ralo, e tudo o que fica é uma vaga lembrança, um resíduo indefinido.

Hoje, ao ler «Let’s look o trailler do Herman Enciclopédia», da Anabela Mota Ribeiro, percebo - não sem espanto - de onde me vem a expressão «ide ...» que tantas vezes já escrevi em textos deste blogue. Foram horas a consumir este programa e a marca ficou, mesmo que em conversas de socialização faça a triste figura de não saber dizer coisa nenhuma.

27/10/2013

Apaziguamento

Estou ensonada. Não por causa de uma recente privação do sono, que a noite até foi mais comprida. É como se o corpo estivesse finalmente a relaxar de meses e meses de tensão permanente. Como se a minha mente caminhasse enfim para um descanso prévio que lhe permita encarar com serenidade as mudanças decisivas que espreitam ali, ao virar daquela esquina que se vai aproximando a passos de gigante.

Qual o índice de resistência do material de que sou feita? Alto e nada desprezável.

Tenho sono. Um sono que transcende a minha resoluta vontade de me manter acordada e me embala, como se a cama fosse berço, como se a cama fosse barco.

Ao fim de muitos meses, o corpo tem sono. Esta noite dormirá apaziguado.

Dance dance dance

A música que os meus pés dançam, quando a cabeça não sabe ordenar o que a boca quer dizer.


dance_by_dzmajce


Having trouble telling
How I feel
But I can dance, dance, dance
Couldn't possibly tell you
How I mean
But I can dance, dance, dance
«Dance, dance, dance», Lykke Li

26/10/2013

A mansão do meu amor tem portas duplas

the door by NuclearSeasons

VI

A mansão do meu amor tem portas duplas,
Abertas de par em par.
Agora que se dana zangada
Eu queria ser o seu guarda
E receber as chicotadas da sua língua.
Assim poderia ouvi-la quando está zangada,
Como um ouriço novo a chiar de terror.


Poemas de amor do Antigo Egipto, Tradução de Helder Moura Pereira

24/10/2013

Let the rain fall

the_rain_waltz_by_lilibloody-d5dfc0z

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
Alberto Caeiro

23/10/2013

sealed with a loving kiss_by licshots @ dA







A sua boca é muitíssimo suave,
sim, ele é totalmente desejável.
          Cântico dos Cânticos, 5:16           

20/10/2013

Spinning around

Andar às voltas não é um exercício tão inútil como à primeira vista possa parecer. Ao fim de muitas voltas, talvez se consiga ficar tonto. Talvez se caia. Talvez no chão, caído de costas e a cabeça à roda, olhando o céu, se descubra finalmente o caminho.

19/10/2013

18/10/2013

«diz-me se te dói»

Até onde sinto, dói por dentro e por fora.

Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
«A trapezista», Rui Costa



Título: Sulscrito, º 2, verão 2008, Revista de literatura

Despertei a sentir-me perdida


Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio

17/10/2013

Ao pequeno-almoço, chá e bolachinhas. Ou então uma chávena e meia de café

Hoje acordei bem-disposta e lembrei-me deste filme. Não vou sequer tentar perceber a ligação entre a boa-disposição e o ter-me lembrado disto, prefiro ater-me à BSO que vai bem com o humor da manhã.

16/10/2013

Et in Arcadia ego

Poussin, 1638/39
Os Pastores da Arcádia
Museu do Louvre

Também na Arcádia se tropeçou na morte

Para se fazer literatura, é preciso fazer assentar o novo texto nas ruínas dos textos antigos - a literatura nova baseada nas ruínas dos clássicos, pelo que a criação literária implica encontrar a morte, cada novo texto determina a morte do anterior. 

Nenhum autor é capaz de contornar os túmulos - as ruínas dos textos antigos -, visto não haver literatura sem literatura. Trava-se então a batalha, que Harold Bloom refere em A Angústia da Influência, entre o escritor-criador e o seu precursor, num processo de angústia permanente da incerteza de a conseguir ganhar, de não conseguir que o seu texto não seja mais do que a mera repetição do que já foi escrito. 

Também segundo Bloom, um texto nunca se lê correctamente, ler mal é a condição necessária para se ser um escritor forte, um escritor que vence as ruínas do texto precedente, ainda que o seu texto esteja condenado a morrer, a ser um túmulo, ruína de textos vindouros.


15/10/2013

O esbardalhamento é poético

Há uma certa poesia no esbardalhamento. Uma pessoa sai de casa, composta, decidida, confiante, apressada. Uma pessoa, sem o prever, sai para a rua e esbardalha-se no meio do chão. À sua volta o tempo trava a fundo: a pasta/mala; o chapéu-de-chuva, se o tiver; o saco da marmita, se o levar; tudo a voar em câmara lenta. O corpo alargando-se como um esquilo-voador em posição de salto, as mãos abertas a tentarem segurar-se ao vazio, os esgares de quem vê tarde demais o esbardalhamento, o grito de quem não acredita que se vai esbardalhar na rua mais movimentada da cidade, antes de entrar ao serviço, no dia em que vestiu uma roupa nova. Slow motion – porque o inglês sempre dá um certo consolo quando falta a dignidade de um Neo pelos ares. A multidão incapaz de avançar, travada igualmente pela desaceleração do tempo. As cabeças a virarem-se na direcção do esbardalhamento, alguns gritos solidários, as mãos a encolherem-se para segurar o susto em vez de se esticarem para agarrar quem vai em voo planado. Esbardalha-se. Positivamente: corpo, mala, pasta, marmita, tempo lento, susto, gritos, esgares de horror, mãos esticadas, a roupa nova, tudo a raspar pelo chão, até que a Física faz o que tem de fazer.

Há uma certa poesia no esbardalhamento. O esbardalhamento é poético.

14/10/2013

Conclusões trágicas a meio da tarde

Não sei como fiz, mas não consigo escrever um texto académico como escrevi durante anos. É um mísero texto científico com 500 palavras, pl'amor de Deus! Ó inteligência!, ó pensamento dedutivo e indutivo e reflexivo e... - esqueci-me da palavra -, onde andas tu??

Natureza humana

— A gíria artística que aquela mulher utiliza cansa-me — disse Clovis ao ser amigo jornalista. — Ela gosta tanto de falar de certos quadros como «a crescerem por nós», que parece que são alguma espécie de fungos.
Saki (H. H. Munro), «A tela humana».

Alfândegas imaginárias

Despachei as malas do passado pelos transportes à disposição. Escrevi no Destino: O Mundo Inteiro, deixei a Origem em branco. Recomendei-lhes expressamente que se perdessem. O regresso não será bem-vindo.


Old Train Station Luggage by Brooke

13/10/2013

O anúncio da Mango

não me impele a comprar a roupa, mas desperta em mim a vontade de oferecer um champô à Miranda Kerr.

12/10/2013

Não é querer, é precisar

Um dia entristecido, um filme vago na televisão, uma manta quente e um chá fumegante nas mãos. Uma música a sobrepor-se à imagem difusa e um pensamento inquieto. Faltas tu. Porque eu preciso.



I think we both can agree
What I want is not always what I need
What I need is to be tethered to you
'till all I see is there's no end in view.

Rodrigo Leão - Incomplete (Ft. Scott Matthew) - Directed & Edited by André Tentugal
Choreographed and Performed by Catarina Oliveira
Produced by Tomás Valle
Photography by André Tentugal & João Sousa
Art Direction by Inês Nepomuceno
Make Up & Custom Design by Mariana Martins
Special Thanks To:
Scott Matthew;
Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (Casa do Vinho Verde);
Galerias de Paris,
Cimbalino Filmes

álbum Songs (2004 - 2012)

11/10/2013

10/10/2013

A minha vida dava uma banda sonora #14

Nem todas as músicas que compõe a história da minha vida em formato banda sonora me levam para o lado mais negro ou escuro das minhas vivências. Há músicas, como esta, que me recordam momentos bonitos, mas, acima de tudo, que estes não estão circunscritos ao passado. É por isso uma música que apela à parte de mim que espera pacientemente por um futuro mais radioso.



Just like a star across my sky,
Just like an angel off the page,
You have appeared to my life,
Feel like I'll never be the same,
Just like a song in my heart,
Just like oil on my hands
«Like a star» - Corinne Bailey Rae

O Nobel da Literatura é de Alice Munro

Há uma ideia persistente nos meios literários nacionais de que o conto não vende, porque o público não o lê. Olha-se para o contista, é esta a minha sensação, como um romancista falhado. Pelo que tenho lido hoje, em reacção à atribuição do Nobel da Literatura, a ideia estende-se a outros países. Embora não conheça o trabalho de Alice Munro, fico contente que o tenha ganho, pela possibilidade de cair um mito.

08/10/2013

O amor que ela sente é o silêncio

O amor que ela sente é o silêncio.
Constitui um ramo sentimental da sua própria solidão.
Às vezes o amor cresce-lhe no interior da ausência
e a sua felicidade mal adubada
adoece-lhe as raízes da vida.

Subimos sempre ao corpo de quem amamos
mesmo que a razão seja obtida a partir
do silêncio de certas palavras
uma forma emotiva de transformar em vazio
todas as verdade que não sabemos aceitar.


Fernando Esteves Pinto (2010). Área Afectada. Temas Originais.

07/10/2013

Natureza humana

«Serviu dois uísques, unimos os copos, bebeu e fechou os olhos. Era um homem digno e inquietou-se que o primeiro pedaço de chumbo o eliminasse repentinamente da lista dos vivos.»
Luis Spúlveda, Diário de um killer sentimental



Ou como, de repente, ter aconselhado este livro a um rapaz de 14 anos pode não ter sido assim tão boa ideia.

Uma Rapariga Simples, sim, mas do Miller

Li Uma Rapariga Simples no ano 2000, num dia de calor, sobre uma areia escaldante, sob um vento avassalador como normalmente se faz sentir nas praias da Figueira, graças ao Diário de Notícias que resolveu publicar uma colecção de bons textos, organizados numa Biblioteca de Verão. Creio - se a memória não me falha e falha muitas vezes tal é o fastio que tem por memorizar nomes - ter sido o único texto de Arthur Miller que li. Li, pus no saco, chegada a casa pus na prateleira e de lá só o tirei quando precisei de desencantar um nome decente para este blogue, que ainda não era mais do que o primeiro de quatro passos até à publicação.

A verdade é que esqueci a história. Retive apenas o excerto que me levou a adoptar o nome, nada mais. Hoje, treze anos passados, reli-o com o fascínio de uma primeira leitura e entendi a razão por que Janice permaneceu na minha memória, mesmo que desprovida do nome ou contexto - o inconformismo.

Quem sabe, também eu encontre um Charles, mesmo que ele só me possa ver com a ponta dos dedos.

06/10/2013

Universo feminino

[...] tinha aprendido a sacudir o cabelo liso, brilhante e castanho-claro e a pôr aquela expressão de ironia defensiva, perdão silencioso para o desaparecimento inevitável deles. Tinha um charme vigoroso que era quase - mas claro, não totalmente - suficiente.
Uma Rapariga Simples, Arthur Miller

Há tempo para tudo


Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Eclesiastes 3:1-9

05/10/2013

Parabéns, mana querida!

As relações familiares não precisam de laços de parentesco para acontecerem. Podem depender simplesmente da generosidade do coração. Hoje, a minha irmã do coração faz anos. Somos o par de gémeas mais estranho da história que nem a distância que teima em interpor-se consegue separar. Estes últimos, creio eu, seis anos foram uma montanha-russa de acontecimentos e emoções de parte a parte que comprovaram a resistência desta amizade, por isso, aqui continuamos a desejar o melhor deste mundo uma à outra. Para os cépticos que acreditam que na Internet não se encontram pessoas em condições, digo com toda a firmeza que às vezes lá calha.

Ela tem a cabeça nas nuvens e os pés no chão do Norte e eu gosto dela assim mesmo.

04/10/2013

Coisas de homem

ca. 2006 — Hugh Jackman — Image by © James Houston/Corbis Outline

Gosto de perfumes de homem.
Gosto de cheiro de homem.
Gosto de camisas de homem
E boxers de homem.
Gosto da gargalhada de homem.
Gosto de mãos de homem.
Gosto de cachecóis de homem,
E malas de homem.
Gosto da teimosia do homem.
E mais coisas de homem
que não posso escrever.

Natureza humana

I was drying out.

Senior Ed Bloom in Big Fish (2003)

Diálogos improváveis

— Não tenho nada para te dar.
— Não te pedi nada.
— Eu sei. Mas queria dar-te alguma coisa.
— Não quero.
— Porquê?
— Porque não quero nada que te pertença.
— Gostava que tivesses algo meu.
— Queres colonizar-me?
— É isso que pensas?
— É isso que parece.
— Não és uma terra virgem.
— És muito simpático em lembrar-mo.
— Preferia que fosses.
— Para me reivindicares perante o teu rei?
— Para saber que és minha?
— E por que não ser uma rês? Podias marcar-me com o teu nome e prender-me num redil. Servia melhor os teus propósitos dominadores.
— Haverias de conseguir fugir. És demasiado selvagem para o gosto polido dos meus hábitos.
— Como se isso fosse mau.
— Não é mau, é inadequado.

03/10/2013

R.I.P., Clio


Adeus, companheiro de muitos quilómetros.
Foi contigo o meu único acidente e a minha única multa, a única coisa que tive assaltada; transportaste algumas das pessoas que mais queridas me foram; viste mais do que era suposto; ouviste-me reclamar, cantar, rir, chorar e ouviste o meu silêncio, por horas e horas; enchi-te de lixo, de livros, de atoalhados e miudezas, de tralha e tintas; passeaste na gaiola cães, gatos e pessoas que precisaram de boleia. Tinhas já um aspecto feiinho, mas eras meu; foi nas minhas mãos que chegaste aos 300.000 km e eu gostava de ti como eras. 


Foste muito mau em teres deixado de andar, assim, no meio da auto-estrada, à hora de ponta. E eu que tinha tanta coisa para ir levar ao Ecoponto.
Bolas!

Em busca da «swap» desconhecida

Acordamos a ouvir falar de «swaps», passamos o dia com elas a espreitarem por todo o lado, nem na casa de banho estamos salvos. É a senhora que não sabe das «swaps», é a senhora que afinal sabia das «swaps», é o senhor que não quer saber quem sabia das «swaps» e são as alminhas, como eu, que nunca conheceram uma «swap» mais gorda, com a firme certeza de que nunca ouviram falar em tal e não estão a mentir.

Para esclarecimento da minha alma simples e do mundo que me lê, o Económico dá uma ajuda: O que é um contrato 'swap'?

Ide em paz.

Natureza humana

Chegando lá vou ficar bêbada de querosene
Vou raspar os cabelos até perder a cabeça
«Solitária», A Banda Mais Bonita da Cidade

De sábio e de estúpido, todos temos um pouco

Parlare è da stupidi, tacere è da cobardi, ascoltare è da saggi.
Carlos Ruiz Zafón


Enquanto corro os olhos pela página inicial do Facebook, como se procurasse alguma coisa em concreto sem saber muito bem o quê, talvez uma boa notícia, talvez uma piada, talvez uma música inesperada que me acompanhe por todo o dia, paro os olhos numa entrada do blogue Sul Romanzo, onde leio aquela citação que, pelo que consigo perceber numa rápida pesquisa googliana, pertence ao romance A sombra do vento, um dos muitos que compõem a minha lista de leituras futuras, de carácter obrigatório. Numa tradução livre, uma vez que o mesmo Google não me deu grande resultado, poderia traduzir a frase como «Falar é para os estúpidos, calar para os cobardes, ouvir é para os sábios». Assim de relance, concordei - sei muito bem a espécie de cobardia que muita vezes se esconde debaixo da capa do silêncio, aquela incapacidade pegajosa de dar a cara pelo que se quer, ou não se quer -, porém, à medida que fui baixando a página, num scanning e skimming de fazer inveja ao mais proficiente dos leitores, o verbo que inicia aquele enunciado e o que o termina como que soaram na minha cabeça como a sirene grave de um cais. Para praticar a sábia arte de ouvir, alguém tem de praticar a tola arte de falar; o volume do que se ouve depende do volume que se fala, ou seja, há sabedoria sem tolice.

02/10/2013

Natureza humana

— Não te parece que estamos a ser patetas? — disse alegremente Egbert.
Se Lady Anne concordava, não o disse.
— Admito que a culpa seja, em parte, minha — prosseguiu Egbert, cuja jovialidade se dissipava. — Afinal, sou humano. Parece que te esqueces de que sou apenas um ser humano.
Saki, A Tela Humana, Vega.

Pela manhã

Todos os dias, pela manhã, abria a janela do quarto e conversava com o vaso das sardinheiras pendurado no beiral, conversava com os passarinhos, o gato preto que se enrolava nas pernas, a gata malhada que ronronava por festas, a ninhada bicolor que saltitava de entusiasmo infantil; conversava com o espelho, com as divisões da casa, reclamava com a máquina do café e a máquina de lavar roupa, indagava o jornal, questionava o frigorífico, falava consigo própria e com todos os objectos e seres da casa. Só não falava com pessoas, para essas guardava o desentendimento do mundo.

01/10/2013

A minha pátria amorosa é a língua estrangeira

Amar um homem com um nome estrangeiro é elevar o amor a um plano acima da perfeição. Não se pode amar um Mário ou um Manuel da mesma forma que se ama um Heathcliff ou um Romeo.

30/09/2013

Naquela manhã choveu

Naquela manhã choveu. Com dificuldade se diria que a manhã clareou, tal a espessura de nuvens que ocultavam um sol já de malas feitas para o outro lado do mundo, sem vontade de conceder mais do que os indispensáveis raios, para nos alumiar e aquecer. Consequência disto tudo, naquela manhã choveu e fez frio.

Os acordares em manhãs assim costumam ser difíceis, o corpo quer o aconchego e o ar fora da cama tende a arrefecê-lo por maldade travessa. É por isso que os dias frios favorecem a junção dos corpos debaixo do lençol, mais do que os dias amenos ou quentes. As relações acontecem por necessidade de conforto, de calor, nas noites frias que hão de, invariavelmente, morrer nas manhãs gélidas. Se chover, pior. Ou melhor, se do outro lado da cama houver um corpo quente.


A noite tinha sido fria – demasiado fria para uma noite de início de outono, dirão os doutorados no Borda-d’água – e a manhã… como já sabemos, fria e chuvosa. A cama aquecida de um lado, arrefecida do outro – ali era sempre inverno, mesmo quando o termostato da casa marcava 34º.

29/09/2013

O palavreado dos boletins de voto

deve ter sido pensado para confundir as pessoas, principalmente se forem mais velhas ou com um nível educacional mais baixo, para não falar das outras. Grita-me a minha avó do lado de lá da lata onde foi votar «qual é que é para a Junta, que eu não o encontro?». Pois, foi preciso olhar bem para os três, para perceber. Não podiam simplificar e chamar às coisas nomes que as pessoas entendam? 

26/09/2013

A vindima

A vindima é um bom exercício para o esquecimento. Quando se fazem metros e metros, de cabeça ao fundo, rabo para o ar, entre as parras, não se consegue pensar em mais nada, a não ser salvar os dedos da tesoura.

25/09/2013

Bang Bang

Na versão de Dalida ou de Nacy Sinatra, a questão fulcral é
Bang Bang e resto cui Bang Bang a piangere Bang Bang hai vinto tu Bang Bang
il cuore non l'ho più.

24/09/2013

Quem vive entre as ervas, bicando pedrinhas, nunca voará.