21/12/2016

O que farei quando este blogue afunda?

«escrevo para dizer o que não pode ser dito»
Ana Hatherly


Foi assim que tudo começou e porque tudo começou. Havia tanto para dizer e nenhuma margem para o fazer. Por razões que não se explicam com lógica, de alguma forma, a impossibilidade do falar ia-se repetindo num contínuo extenuante. Até agora. Tudo se pode dizer, sem medo, sem pensar. No momento em que apetecer, como se quiser. Dizer sempre, calar nunca mais. 
Por isso, este blogue está em risco, porque eu só sei escrever o que calo. Não havendo mais nada a calar, que escrever? Pode ser que descubra. Pode ser que não. Talvez 2017 traga ideias novas. Ou a eliminação definitiva.

14/12/2016

A melhor prenda de Natal de todos os tempos

Melhor que A Minha Agenda ou os chocolates Fantasias de Natal, melhor do que o tradicional par de meias ou o pijama polar, é... (rufo) o meu livro, pois claro. Fará as delícias de qualquer presenteado e permitirá o aumento de consultas no psicólogo (temos de ser uns para os outros). É só procurá-lo na Livros de Ontem ou na FNAC, embrulhar bem embrulhadinho e oferecer. Garanto que não se vão arrepender («olhe que não!, olhe que não!»). Estou sempre a pensar no vosso bem*.



Críticas de quem disse bem (as outras não interessam, como é óbvio)
Álvaro Cordeiro - Texto setuagésimo primeiro
Carina Pereira - Um Amor Morto, de Carla Pinto Coelho (opinião)
FATifer - O último que acabei de ler…




*no fundo, só me interessam os direitos de autor, pois que quero ir de férias à custa do livro...

13/12/2016

Haiku de Bashô

36
os visitantes dentro do templo
ignoram
que as cerejas floresceram



(Interpretação da lançadora de haiku: os astros dizem que está na altura de largar os esoterismos metafísicos e sair para a rua e rebolar-se na relva)



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07/12/2016

Loving you, never be alone

Este blogue só tem dois caminhos possíveis: seguir pela poesia lamechas ou pela música fofinha.
Arruinado por arruinado, venha a música (a poesia segue noutro dia).


Chet Faker - Archangel


Holding you, never be alone
Kissing you, you tell me I belong
Missing you, you tell me I'll be strong
Loving you tell me I belong

Holding you never be alone, never be alone
Missing you tell me I'll be strong, you tell I'll be strong
Kissing you never be alone, you never be alone
Missing you tell I'll be strong, you tell I'll be strong

Holding you, never be alone
Kissing you tell me I'll be strong
Missing you never be alone
Loving you never be alone

Missing you, you tell I'm strong
Kissing you, you tell I belong
Tell I belong
Holding you I'll never be alone
Kissing you you tell me I'll be strong you tell me I'm strong

Holding you, you never be alone
Kissing you, you tell I'll be strong
Loving you, you tell me I belong
Missing you, you tell me I'll be strong

Holding you never be alone, never be alone

06/12/2016

Love came like madness

Here Now (Madness) LIVE -- of Dirt and Grace -- Hillsong UNITED


Skies spin their dance within Your breath
Time runs its race within Your hand
My mind runs wild to comprehend
What no mind on earth could understand

Your ways are higher
Your thoughts are wilder
Love came like madness
Poured out in blood-wash romance
It makes no sense but this is grace
And I know You're with me in this place

Here now
All I know is I know that You are
Here now
Still my heart
Let your voice be all I 
hear now
Spirit breathe
Like the wind come have Your way
Cause I know You're in this place

Faith makes a fool of what makes sense
But grace found my heart where logic ends
When justice called for all my debts
The Friend of siners came instead

Cause I know then You're
Here now
Still my heart
Let your voice be all I
Hear now
Fix my eyes
On the things that I can't see now
Spirit breathe
Like the wind come have Your way

02/12/2016

Agradecimento póstumo (com dez anos de atraso)

Finalmente, tenho de te agradecer. É um agradecimento que chega com dez anos de atraso, mas é importante que fique registado. No dia em que partiste, amontoaste, embrulhaste em papel de jornal, implodiste e explodiste o meu coração, disseste que era melhor assim, que ficaria melhor sem ti -- quero que tenhas uma vida porreira e não não uma vida como a minha. E desapareceste no ar, como se não passasses de uma imaginação feita nuvem, bem ao gosto dramático das personagens dos maus romances. Agora que passaram dez anos e eu já me refiz da tua maldade, mesmo tendo escavacado com o coração mais uma vez ou duas, pelo caminho, posso dizer com toda a propriedade que tinhas razão. Tinhas toda a razão, na verdade. A minha vida não é como a tua e finalmente está porreira. Melhor que porreira, bem para lá disso. Agradeço-te, por isso, porque viste o que eu não via e não me impediste de alcançar o melhor que alguma vez tive. Aqui entre nós, que ninguém nos lê, não trocava um segundo do que tenho agora por qualquer bocadinho do passado. Podes voltar para o horizonte onde te desterraste, não preciso de ti, tenho planos para os próximos cinquenta anos.

30/11/2016

Adoro os efeitos sonoros de quando você sussurra absurdos no ouvido do meu coração

Se eu corro - A Banda Mais Bonita da Cidade



Se eu corro

Eu quero guardar teu beijo
Na concha das mãos
Teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
Que eu não lavo não

Sou alvo pros teus olhos claros parecidos
Com essa estação
E adoro os efeitos sonoros de quando você sussurra
Absurdos no ouvido do meu coração

Se eu corro
Eu corro demais só pra te ver meu bem
É que eu quero um socorro
Se eu corro



(ouço esta versão da música na vertigem de tudo aquilo que tenho para te dizer, na mesma intensidade e deslumbramento)

29/11/2016

Coisas boas acontecem àqueles que já não esperam

Coisas boas acontecem àqueles que já não esperam. São pequenas insignificâncias que se juntam: alguns movimentos, algumas palavras, alguns gestos, consideráveis sacrifícios, e eis que se ergue perante os olhos um mundo novo em todo o seu esplendor.
É preciso ver a materialização do sonho para o considerar. Não sem esforço, não sem uma réstia de medo. O corpo despe lentamente as camadas da decepção, da insegurança, das angústias, de todos os maus finais. Uma a uma elas caem aos pés. Este é o meu corpo e a minha alma. Nus, desamparados, expostos. Toma-os ou deixa-os -- o quase não voltará a ser aceitável.
Duas mãos pacientes dão forma ao vazio, conhecem a solidão, recolhem os remanescentes e criam uma nova forma de dizer o amor.
Coisas boas acontecem àqueles que já não esperam. Coisas boas aconteceram-me a mim, e a nós. 

Andreas Heumann


(e é por isto que ando lamechas, piegas, mimalha, a negar todos os livros que sempre amei, as músicas que sempre ouvi, porque preciso de uma coisa nova e única)

27/11/2016

O meu amor

Edouard Boubat- Ile Saint-Louis, Paris, 1975







O meu amor - Cristina Branco (Sensus, 2003)
Chico Buarque

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

22/11/2016

A V I S O

Está oficialmente aberta a ÉPOCA DA PIROSICE, neste blogue.



A Banda Mais Bonita da Cidade - Potinhos

Não, não falo de coração
Coração é piegas, careta
Coração tá fora de moda
Nada, nada de cantar coisas do coração

No teu samba canção
Nada de um coração que infarta por
sofrer de amor
Na tua balada, nada

de um coração que foi triturado
Mastigado e jogado fora
Nada dessa fera que se auto devora
se auto destrói

e deixa no lugar um buraco gelado
que quando venta dói
Por favor, não ponha um marca passo
no espaço do meu coração

Substitua o bagaço do meu coração
Tão manso e sem descanso
No seu pulso no
balanço no bater

Ponha um daqueles potinhos
com água e açúcar
em que o beija-flor vem beber


A Banda Mais Bonita da Cidade - O mais feliz da vida


Eu não tenho sono
Eu não tenho tempo
Eu só tenho olhos pra você
Há tempos eu não via
Página em branco
Força, redenção e amor
Isso por direito, pro resto dá-se um jeito
Que venha a primavera agora
Faltava ousadia
Mas, se rasgo o peito
Acaba tudo em vermelho e lá fui eu

Eu não tive plano
Eu não tive glória
Mas sonhei o seu melhor sonho
Tive sua mão e agora sua mãe
Também quer ver o homem em mim
Já me vi tão triste e tolo é quem insiste
Estar assim tão satisfeito
Faltava ousadia
Mas, se rasgo o peito
Acaba tudo em vermelho e lá fui eu

O mais feliz da vida
sou eu
com tudo exposto nas mãos


P. S.: A promotora não se responsabiliza pelos danos causados nas retinas de quem a lê, nem pelos problemas auditivos de quem a ouve. Estais, por isso, por vossa conta e risco.

18/11/2016

Estou tão com a cabeça

noutro lado que até me esqueci que estava a responder a um inquérito. Ai...

Mario Giacomelli :: from ‘Le mie Marche’, 1970 / related image from Passato series

11/11/2016

I have a tendency to laugh at all the wrong moments



Da série o Spotify é o meu melhor amigo



The Wine We Drink - Drew Holcomb and The Neighbors 




I have a tendency to laugh at all the wrong moments.
Sometimes I forget the words to my own song.
I'm not the silent type or an exit sign or a yellow brick road.
You are the one thing that I know.

It's in the wine we drink, dirty dishes in the kitchen sink,
and the lights go out til the sun comes up; we are not alone.
It's in the miles we drive, never having to say goodbye
to the things we tell each other without saying a word.
You are the one thing that I know.

There's a beauty that we never know what the future holds.
Beneath the surface we are the calm, we are the storm.
I'm not sunset or a hurricane or a Vincent Van Gogh.
You are the one thing that I know.

10/11/2016

Hoje acordei assim


Felizes daqueles que as encontram e as sabem conservar.

09/11/2016

O Mundo tornou-se um lugar mais estranho

segura-me

Elizaveta Musienko

08/11/2016

Quando deixas de te levar a sério, os outros levam-te a brincar. É a consequência lógica da tua escolha. Adoramos o tom professoral e respeitamo-lo -- o absurdo reconhecimento por quem nos mostra toda a nossa ignoranciazinha pequenina e tão desnecessariazinha.

06/11/2016

Das partidas necessárias III

Cada impossibilidade mal contornada constituiu uma pá de terra a soterrar o amor. Foram sete palmos regados por um choro triste.

03/11/2016

Das partidas necessárias II

As conversas apagadas são cruzes erguidas no lugar do bem que se perdeu.

01/11/2016

Das partidas necessárias I

Tens, porém, contra mim que fui eu que queimei as nossas pontes.

30/10/2016

Agora que a sexta-feira passou

O dia começou bem cedo, antes da hora apontada para o encontro. 9h30, sem surpresas, atrasou uns minutos. É assim que começam dias especiais que contam -- com a perspectiva de aventuras insuspeitas. De que falam as pessoas que se conhecem há anos? Da vida toda, todas as horas do dia, até à madrugada. 

A cidade ruge e agita-se a cada passo, numa emotiva confusão de sons, cheiros e cores, que há muito era esperada -- Lisboa será sempre a casa a que se regressa com todo o prazer. Muitas horas mais tarde e alguns sacos de compras depois, novo encontro a horas mais ou menos marcadas, sem atrasos. De que falam as pessoas que acabam de se conhecer? Da vida quase toda, todas as horas da tarde, até à despedida. 

À hora quase marcada, com caras que ficaram conhecidas, falou-se do medo, da morte, da alegria, da vida. Falou-se de tudo, até do que ficou subentendido. Falou-se de quase nada. No fim, uma gratidão imensa e um carinho enorme por todas as queridas pessoas que escolheram estar comigo -- foram o melhor de tudo.

A despedida da cidade acompanhou a subida do nevoeiro. Uma inclinação do dia que arrefeceu o ar. Deixo o bulício para trás. Trago a mochila pesada e o coração cheio. Há dias assim. 



26/10/2016

Esta sexta-feira

Parece que o dia 28 é já esta sexta-feira, o que quer dizer que eu tenho de sair do vale onde me desterrei, preparar um saco com algumas coisas e viajar até à capital, para falar do único texto sobre o qual não tenho vontade de dizer coisa alguma.

É assim que a vida ensina os tontos a pensarem duas vezes antes de fazerem coisas para as quais não estão preparados.

Por isso, caríssimos, sexta-feira, pelas 19h30, numa rua de Benfica que só sei ser perto do cemitério (Rua Cláudio Nunes, 87 A), lá estarei, contente e passeada, para conhecer os doidos que me compraram o livro (e os que o quiserem comprar, e os que só lá vão porque não conseguiram bilhetes para ir ver a bola).




25/10/2016

Os moralistas da treta

Sempre que acontece algum percalço/acidente com uma criança, lá vêm os moralistas da treta dar conselhos sobre a melhor forma de conservar hermeticamente os mais pequenos, como se a infância fosse um período amorfo em que tudo corre conforme o previsto e não há cá lugar a desvios.

Não defendendo a negligência dos adultos, que a há em muitos casos, talvez fosse bom que estes comentadores opiniosos se lembrassem do tempo em que foram crianças e dos sustos que terão eventualmente, e escrevo «eventualmente» porque devem ter sido todos uma espécie de cães de loiça muito quietos e sossegados que atravessaram a infância postos em sossego para grande consolo das almas dos seus ricos paizinhos, repito, os sustos que eventualmente terão dado aos adultos que os supervisionavam.

Assim de repente, lembro-me da história de a minha mãe ter enfiado um feijão no nariz e não ter dito à minha avó, pelo menos até ter ficado com o nariz tão inchado que só na farmácia a salvaram de males maiores; ou de o meu pai contar que uma tarde de Verão se esqueceu de avisar a tia da futebolada com os amigos, tendo deixado a senhora em prantos a pensar que ele tinha caído a um poço; ou daquela vez em que o meu irmão mais velho se escondeu junto ao telhado da casa dos meus avós e fez toda a gente procurá-lo a tarde inteira, porque teve medo de dizer onde estava; ou ainda aquela vez em que um dos meus irmãos mais novos decidiu ir ver as pedras da praia e desaparecer por uns terríveis instantes que nos convenceram que o garoto tinha ido mar dentro.

E, como estas, inúmeras trapalhadas feitas pelos mais novos. Se há história/negligência no caso da criança desaparecida em Ourém? Pois, pode haver, mas também pode tratar-se do caso simples de uma criança a fazer das suas. Não é preciso tratar a família como se fossem uns idiotas.

24/10/2016

Preeminência parda

Reclamamos uma elevação moral acima das cabeças vulgares dos outros. Eu sou. Eu faço. Como mais ninguém. Desprezamos o indivíduo, que relegamos para o nível de pouco confiável, incapaz de observar o mesmo rigor que nos define os dias. São gajos incompreensíveis, esses, que usam do engano e da desonestidade para confundir almas incautas. Que Alá lhes dê chatos e braços curtos para se coçarem! Ao fim da noite, quando se fazem as contas e cada um recebe a paga que lhe cabe, a superioridade escangalha-se no nada e afinal somos todos feitos da mesma matéria animal e capazes das mesmas acções desprezíveis.

23/10/2016

Been gone such a long time and I feel the same

Missing - The XX

21/10/2016

O pássaro teimoso

fosse eu uma escritora dotada e há muito que teria discorrido sobre ti, pequeno ser alado que insistes em bater contra o vidro da janela. não sei o que vês, o que tanto te atrai nesses quadrados sujos que resistem ao teu bico. há três meses que teimas em fazer parte dos meus dias -- mais coisa menos coisa, que eu sei que tiraste um mês de férias e me deixaste só do lado de cá. já estive para te deixar entrar, ouvir as tuas razões, mas não creio que nos fôssemos entender. és pequeno, todo negro à excepção da mancha branca que começa no teu pequeno pescoço de pássaro e te cobre a cara toda (não sei se os pássaros têm cara, para o enfeito, tu tens). porque é que és tão insistente? por que não desistes? os homens que amei largaram-me com uma facilidade que disse muito do quanto me amavam de volta e tu, pena negra e branca, não arredas pé. será que me trazes a felicidade e eu ainda não percebi?

20/10/2016

Para onde vai o Mundo?

Moby & The Void Pacific Choir - Are You Lost In The World Like Me




(obrigadinha a quem me deu a conhecer o vídeo, mesmo sem ter querido :)

19/10/2016

Resistência

Francesco del Bravo

17/10/2016

Clementine was born not to be

Clementine - Luísa Sobral

13/10/2016

Machos e fêmeas

Educada superiormente num local onde, segundo os eruditos, «os grelos cresciam pelas paredes», cedo me conformei com o favorecimento do exíguo macho em detrimento da abundante fêmea. Passados que estão os anos da inocência, continuo a assistir a isto: viveremos muitos anos numa sociedade machista, apoiada pelo poder feminino. Agora, como antes, as maiores assimetrias foram causadas pelas mulheres.

Nobel da Literatura 2016

12/10/2016

Na gravidade dos meus dias

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.


Rui Costa, em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves

11/10/2016

Das curas

Sabemos que estamos curados das maleitas sentimentais do passado, quando ouvimos Adele na rádio e mudamos de estação por já não suportamos tal música.

07/10/2016

Nas setas grogues do Cupido

Gostava de ler definições de amor. Agradavam-lhe particularmente as que descreviam com pormenor o enamoramento das almas, o poder de um olhar que se cruzava, o inesperado que acontecia, a facilidade com que a vida de duas pessoas mudava, por culpa das setas certeiras de Cupido.

Falava da paixão com a propriedade de quem tinha lido muito e tomado como seu o que era de outros, já que as setas que voavam em todas as direcções, acertavam em todos, menos nela. Durante esse tempo, oscilou no medo de ser incapaz de se apaixonar e o desejo crescente de o fazer. Por isso, ainda se lembrava com todos os pormenores da primeira vez que lhe aconteceu confirmar em nome próprio o tanto que lera – e percebeu que ficava aquém.

Aceitou que lhe era muito difícil apaixonar-se, da mesma forma que aceitou que, sempre que se apaixonava, o sentimento durasse anos e quase outros tantos a ser arrumado nas gavetas do esquecimento. No entanto, ao contrário de tudo o que lera, não eram as mãos trementes, nem o coração descompassado, muito menos o sorriso que se colava à cara, que lhe confirmavam que se apaixonara. Essa confirmação vinha da intensidade da preocupação.

Quando começava a preocupar-se com as coisas simples de um homem: se comia, se dormia, se o dia corria bem, se andava feliz, se precisava de ajuda, se lhe faltava um carinho, se se se…, era certo que aquele homem tinha conseguido quebrar a barreira de discreto distanciamento que erguia à sua volta.

Por incontáveis vezes engolia o cansaço, escondia a decepção com outras coisas, quebrava a vontade de estar em silêncio e não falar com ninguém, apenas para estar disponível para ele, porque ele precisava. Claro que ser assim acabava por passar a ideia de ter uma resistência às coisas e umas «costas largas» que honestamente não tinha, porque depois ficava só ela com o seu lastro numa mão, e o lastro dele na outra. Sozinha, a soterrar-se no peso do mundo.

Havia também um denominador comum que a fazia compreender que a paixão tinha acabado (ou que tinha conseguido extingui-la): a não preocupação.

Quando já não se preocupava com o que se passa na vida daquele homem que lhe tinha sido tão essencial, sabia que tinha acabado. Na verdade, sabia que estava gasta, tinha-se deixado consumir pelas exigências alheias, até não haver mais nada.

06/10/2016

Selfie 2

GQ - Homenagem a Helmut Newton by Richard Ramos
Homenagem a Helmut Newton por Richard Ramos, para a GQ


(só para o FATifer resmungar um bocadinho)



05/10/2016

Teoria de Atar as Pontas - prurido ocasional

Distraidamente revejo-lhe a figura vertical, o jeito do riso que lhe semicerra os olhos. Pergunto-me: como foi possível amar tanto alguém que me quis tão pouco.

04/10/2016

Podia-não-podia

Podia explicar os meus dias, a essência da solidão de que são feitos. Podia explicar com detalhe os desapontamentos que sobraram quando a ilusão ruiu. Também podia explicar, para além da dúvida razoável, a angústia que se esconde debaixo de horas cobertas de pó, porque é tudo demasiado pesado para uns ombros só. Podia explicar o detalhe do medo, o resquício da saudade, a curva do cansaço. Mas não posso, Tenho uma sombra roxa no pulso -- é tudo o que posso dizer.

03/10/2016

Selfie

Wilfried Haillot

01/10/2016

Acho que fui eu que escrevi isto

e nem sei porquê....

Os nossos desgostos como leitores não podem ser idênticos aos embaraços dos poetas, e nenhum crítico consegue alguma vez afirmar a prioridade de um modo digno e justo.

22/09/2016

Precisava mesmo disto!

Da última vez que escrevi sobre isto, acabei a escrever um livro. Ainda assim, preciso arriscar e voltar a dizê-lo: preciso mesmo de me apaixonar. De preferência, sem muitos dramas, nem malabarismos desnecessários, uma convivência simples e despojada. De preferência, por alguém minimamente são da cabeça e das ideias que, no mínimo, gostasse de mim da mesma forma -- a minha vida já teve ficção que chegasse.


Sheila Metzner - The Kiss, Fendi, 1986

I feel hope in the strenght of our love

Our love - Judah & The Lion



I've been walking down this road
On my own, on my own
I've been searching to find my way
To find the path you've been driving on

Like the trees wait for the rain to come
I feel hope in the strenght of
Our love

I'm going crazy 'cause you're moving slow
The train ain't running, like I wanted to go

Like the seas wait for the dawn to come
I feel hope in the strenght of
Our love

So wait for me as I wait for you
And we'll find the love we've wanted to
And all come true

21/09/2016

Convite

É oficial, a primeira apresentação do livro está marcada para dia 28 de Outubro, em Lisboa (Benfica). Esta é a parte fácil, marcar um dia, o pior será pensar no que dizer. Se os meus querídissimos leitores mais experientes no assunto me quiserem dar umas dicas, aceito-as com toda a alegria. E, claro, estão todos convidados a aparecer, mais não seja para ficar a conhecer muitos de vocês.




19/09/2016

© Alison Brady (New York, USA)

16/09/2016

O que chega pelo correio

Chegaram hoje, à hora do almoço, pelo correio tradicional. Vinham todos juntos dentro do mesmo envelope. Ao contrário de todos os livros que compro, não os abri, não os cheirei, não os folheei. Continuam como um conjunto de livros que estranhamente têm o meu nome na capa e, a partir daqui, tudo parece deslocado.




Instantes depois, chegou pelo correio electrónico, a Menina - da Cristina Branco. Tivessem estes livros outro nome na capa e seriam a companhia perfeita um do outro.

Your heart won't stop coming after me

John Mark McMillan - Heart Won't Stop / Stand By Me (Medley/Live)

15/09/2016

Sinto-me verde como os anos mal despontados.

14/09/2016

Esperar é uma forma angustiosa de não chegar a lado nenhum

Sem queixas nem queixumes


Pedem-te que esperes e tu esperas.
Pedem-te um pouco de chão e tu dás.
Ficas então com tempo nas mãos e menos
espaço para poisar os pés.

Suportas o desconforto da imobilidade e a dormência
das pernas que não têm por onde andar. Não lamentas
− o que deste, deste, voluntariamente.

Suportas a preguiça das horas e as rugas na pele.
E esperas. Esperas hoje como esperaste ontem e esperarás
amanhã. Esperas sem saber por que esperas.

Sem queixas nem queixumes.

Depois percebes que a tua espera é vã.

Tomaram o teu chão como outra forma de
colonização e questionaram a tua generosidade.
Pisaram ambos.

Deixaram-te com menos chão e menos tempo.
E pernas incapazes de andar


poema: meu
título: Fernando Esteves Pinto

12/09/2016

O fim do sótão

A rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, contemplou a vida do lado de lá da janela alta, por muitos dias. Junto ao chão, as pessoas moviam-se em ondas para dentro e fora dos edifícios; os carros seguiam a ordem dos semáforos e um vapor acinzentado subia às alturas. Não olhava para cima -- o céu era as barras invisíveis que a mantinham presa. Numa manhã clara, com restos de calor, abriu os olhos e espantou-se do sótão, da janela, do céu, de tudo. Porquê viver tão alto?, tão longe de tudo?, tão perto de nada? Arrastou caixas vazias pelas escadas acima, empurrou caixas cheias pelas escadas abaixo, esvaziou o sótão e mudou-se. Antes de sair, queimou a caixa de cartão escondida debaixo da cama, aquela que tinha jurado não voltar a abrir e depois abriu mais vezes do que as recomendadas por qualquer pessoa sã. Viu-a arder, crepitando as reminiscências do passado, até ser um montículo de cinza fria. Guardou a cinza dentro de um saco preto, trancou o sótão vazio, desceu as escadas numa pressa fugitiva, abriu a porta do prédio como quem busca a liberdade, deixou que a porta se fechasse atrás de si com estrondo, para sobressalto dos ex-vizinhos do primeiro andar, e afastou-se. O saco ficou largado no primeiro caixote do lixo que encontrou. Agora, a rapariga vive numa casa junto ao mar. É no avesso do céu que deposita as resoluções finais: nunca mais dar nada de seu, quem lhe quiser o mar, pague renda elevada, com contrato vitalício. Se não quiser, não perturbe, não chateie -- as mudanças são cansativas e a rapariga que vive numa casa junto ao mar só quer viver de futuro.

10/09/2016

A falta que as férias me fazem

Changing on the beach - California, 1950

06/09/2016

Never stop looking up



Este espaço chegou a um estado de abandono total. Quase não consegui abrir a porta, tal era a altura e a força do matagal. As flores estão todas secas, há vasos tombados, uma confusão. Voltei a fechar a porta e saí. Por enquanto, não tenho como tratar disto, só consigo não me esquecer de respirar e olhar para cima, sempre para cima.


Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? (Sl. 121, 1)

01/09/2016

Flores sem fruto

Resultado de imagem para pedro tapa
Love and Beauty by PedroTapa 

30/08/2016

Tu quoque, Brute, fili mi!

Tenho uma incapacidade assumida de lidar com os silêncios que não compreendo ou que não me são explicados. São na minha vida como uma pedra dentro do meu sapato, uma nódoa negra profunda que não sara e onde tudo, por mais suave que seja, vai bater -- com o agravante de não conseguir transformar os escolhos em preciosas pérolas, porque não passam de pedras.

Ocorreu-me isto ao ler a Isabel, sobre o desvirtuar da oferta de disponibilidade ao nível das relações interpessoais. 

Comentei, com toda a sinceridade já ter desistido de entender por que razão me brindam com estas formas tão pouco honestas de relacionamento. Foi a resposta da Isabel que causou o punch que me tem andado no pensamento desde então: Carla, para mim estes silêncios não têm nada para lutar; é deixar cair e ir à vida.

Será que se consegue que seja sempre assim? Ou o descuido do outro bate-nos em cheio como a traição de Brutus? 

Digo, pela minha experiência, que o processo é tão ou mais doloroso e longo quanto eu acreditava na pessoa em causa e não esperava dela aquele comportamento. Não é que não perceba o que me está a ser feito; não é que não saiba ler os sinais que vão surgindo: o aumento gradual da distância, a diminuição do tempo partilhado, o decréscimo de assuntos essenciais nas conversas, o aumento de todas as contrariedades e chatices; as horas que se tornam dias, que se convertem em semanas, que redundam em meses de silêncio mascarado de qualquer coisa que não chego a perceber.

Claro que eu percebo. Claro que eu sei o que vai sair dali. A luta está em forçar um bocadinho, ir tentando perceber o que se passa a ver se há algum mal-entendido que possa ser resolvido. Mas a luta acaba, porque o cansaço leva a melhor. Percebe-se e engole-se em seco.

Tu quoque, Brute, fili mi!

Porque o que fica disto tudo é a decepção. Esperava de todos menos daqueles em particular e é dali que vem, é exactamente dali que me ferem até à morte. Sou César espantada e incrédula. Não era preciso isto, bastava dizer que não se queria mais.

Haverá vida depois disto tudo, mas é uma vida muito mais cautelosa.


24/08/2016

Ainda o sótão

Depois que fechou a janela, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, experimentou muitas formas de trazer de volta a luz aos seus dias. Comprou candeeiros, pintou sóis e céus nas paredes, vestiu-se de branco, para se sentir mais luminosa. Nada funcionou. Contra tudo o que tinha decidido, a rapariga que viva num sótão aproximava-se da janela, no exacto ângulo de antes, quando o homem que pintava céus se sentava no banco de madeira e pintava o que via, fechava os olhos e esforçava-se para mais uma vez o imaginar ali. Depois recriminava-se pela decisão imatura e afastava-se durante dias. Ao fim de muito tempo, quebrou outra promessa e rastejou por baixo da cama, à procura de uma caixa de cartão que tinha jurado não voltar a abrir. Na primeira vez que a abriu, quase se afogou nas lágrimas inesperadas que lhe correram dos olhos como rios excessivos. Já a lua ia alta a iluminar o sótão, quando a rapariga fechou a caixa e limpou as lágrimas. Passou um tempo comprido. Quando o céu fica mais negro, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, ainda abre a caixa de cartão escondida debaixo da cama (onde guardou restinhos de tintas, pincéis e esquissos), enganando a solidão com a lembrança do homem que pintava céus e já não mora ali.
De alguma forma, volta-se sempre às mesmas músicas, como se a vida não passasse de meras variações sobre os mesmos temas.

23/08/2016

22/08/2016

Em verdade, em verdade vos digo

que era bem capaz de apanhar um avião para a Austrália, só para os ouvir ao vivo. 
(obrigada, Youtube, por cumprires tão bem o teu papel há tantos dias seguidos)



Relentless - Hillsong United



Oceans - Hillsong United

20/08/2016

Curva descendente

 A curva descendente do amor é suave, macia como um caminho de algodão. Consola e conforta até à vertigem final do chão à frente dos olhos.

19/08/2016

Querido Universo

Querido Universo,

não te bastou o tudo que houve antes, foi preciso que o temperasses com o Outono a receber-me do lado de fora da janela, às 7h30 da manhã, e a perigar os últimos dias de trabalho. E para te certificares do dramatismo dos teus actos, «My Immortal» a berrar-me do rádio do carro. Esse humor negro e cruel com que lidas comigo há-de levar-te longe. Vai infernizar outros, sim?

Obrigada.

18/08/2016

O mundo é composto de florescimentos

ofsparrows:
“ Look. I know a slightly chewed up flower isn’t quite on par with those brandy barrels alpine rescue dogs purportedly have, but someone might need an emergency flower or something. It could happen.
”

17/08/2016

Um sótão e um céu

Todas as histórias têm um inicio. Algumas, por vezes, não se sabe dizer quando realmente começaram, deu a surpresa de serem percebidas em estado avançado. Havia uma rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade. Não se sabe muito mais sobre ela, só que um dia conheceu um homem que pintava céus. Bateu-lhe à porta e pediu permissão para ver o fim da tarde do alto da janela do sótão. Espantada, deixou-o entrar e observou-lhe com atenção o cuidado com que misturava as cores. Posso voltar amanhã? Pois, sim, voltasse. Ele voltou. Todos os dias, várias vezes, sempre para ver o céu tão próximo, tal era a altura da janela. Este céu é meu, disse-lhe, preciso dele, não mo tires. Se me impedires de ter este céu, morro. A rapariga que vivia no sótão guardou aquele pedaço de céu só para ele. Às vezes, vinham outros homens bater-lhe à porta, mas ela não os deixava entrar, podiam roubar-lhe o céu que já não lhe pertencia. Dele não sabia muito, para além de pintar céus e de ter ficado com o céu da sua janela. Vivia os dias a esperá-lo e, quando as visitas começaram a rarear, convenceu-se que era por razão das coisas muito dele, as coisas de que ela não sabia. Um dia, o homem que pintava céus deixou de bater à porta da rapariga que vivia num sótão. Passaram-se muitos dias de vigia à janela, o coração perto da porta, o céu a perder a cor. Num fim de tarde de Inverno, cheio de nuvens carregadas e luz barroca, a rapariga que vivia num sótão viu o homem que pintava céus debruçado numa janela de um quarto andar, vários prédios abaixo. O céu da rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade, anoiteceu e para sempre ficou trancado do lado de fora da janela. Fim.

No meio desta loucura inteira

a única certeza inabalável.



Here Now (Madness) - Hillsong United




Por manifesta incapacidade de gestão de conteúdos digitais, este espaço vai deixar de permitir comentários temporariamente (que é como quem diz, eu não chego a tudo).

13/08/2016

Nada me pertence

Não tenho nada de meu. Esta foi a conclusão a que cheguei, enquanto via passar um mar sereno de gente a crescer, qual onda, vindo do lado da areia, e a dispersar-se em frente às nossas bancas. Não tenho nada de meu, porque por tudo se paga direito de uso, taxa, imposto, renda, prestação, enfim. Nem o passado me pertence. Cada um foi à sua vida, ou continua no seu direito inalienável de permanecer morto, e as memórias foram perdendo a intensidade até ao ponto da dúvida. A idealização é uma tentação muito grande. A desvalorização também. Quando foi a última vez que te beijei como se a minha vida dependesse disso? Não me lembro. Creio que passaram anos, mas pode muito bem ter sido apenas ontem.

09/08/2016

Longas tardes de Verão

Há alturas em que a vida é uma longa tarde de um Verão escaldante. Tórrida, sem uma brisa que corra e alivie a dormência do corpo, estéril e seca. Como as tardes de Sábado demasiado compridas nos campos a perder de vista. O comboio ao longe, demasiado rápido para duas mãos cansadas. O Sol a pique a incendiar as costas dobradas sobre o vazio, os pés enterrados na terra fina a cozer os ossos, pequenas joaninhas a pontilhar o arrastar das horas a mais. Uma camada fina de cansaço e desconsolo cobre os ombros descaídos. Tudo está parado. Silencioso. Ausente. E de repente.

06/08/2016

Alô, Figueira da Foz!

Se andam por estes lados, ou são destes lados, euzinha vou estar hoje e amanhã (e todos os fins de semana do mês) na Mostra de Artesanato Urbano (ali pertinho do campo de ténis), acompanhada da minha Colher.

Há bolo à fatia, bolachas de manteiga e, claro, doces tão bons mas tão bons que não dá para comer só um frasco (pelo menos, um dos pequeninos).

Apareçam!

04/08/2016

Falta pouco...

Petra Tomaštíková

02/08/2016

Kindness Boomerang All Day


Obrigada! :)<3 p="">

01/08/2016

107 %

Foram 33 dias de intensa divulgação e espera. Foram 33 dias de surpresa e nervoso miudinho. Foi um total de 748 € (107%) angariados para a publicação do meu  livro. Se há três anos me dissessem que passaria por tudo isto, iria rir a bom rir. Hoje, só posso mesmo agradecer a todos que ajudaram a tornar isto possível.


31/07/2016

30/07/2016

Habemus librum!!!!!


E pronto, já está alcançado o objectivo dos 700 €! Graças a vocês todos, minhas queridas-pessoas-generosas-sem-amor-ao-vosso-dinheiro-mas-com-um-coração-muito-grande! E aos anónimos também (um é meu pai, outro, minha mãe... e os outros desconheço).





P. S.: Pelo sim, pelo não, mais vale avisar já que não se aceitam devoluções. ;)

27/07/2016

A mil à hora


P. S.: Volto não tarda.

25/07/2016

Perto da vista, longe do coração

ou será Longe da vista, longe do coração?


24/07/2016

Leva-me a banhos

Arverne, Queens, New York, 1897

20/07/2016

Apetite urgente por coisas bonitas

la-la-la-bonne-vie:
“ late start… coffee.. monday ;)
”


la-la-la-bonne-vie:
“ Found on angesdesucre.com
”
http://www.angesdesucre.com








19/07/2016

Campanha «Falta pouco para os 700» - parte III

A manhã acordou fria, como acordam as manhãs de Inverno, como acordam as manhãs destinadas a acontecimentos tristes. Ela acordou muito antes da hora, numa consciência enevoada do que a esperava. Sentou-se na cama, puxando os lençóis até ao queixo, não querendo sair daquele ninho de relativo conforto. Encostou a testa aos joelhos recolhidos, a mão direita procurou o vazio dos lençóis frios no lugar onde ele devia estar. Não podia chorar. Num ímpeto, tirou a roupa de cima e saiu da cama. Foi com raiva que se despiu, foi com raiva que sentiu a água quente a correr-lhe na pele, foi com raiva que se enxugou, quase se ferindo. A raiva que a consumia de improviso quando não lhe restava mais nada. Não choraria.





Porque faltam 14 dias, 33% do objectivo (embora eu saiba que falta menos, porque já me chegaram promessas de contribuições) e o nervoso miudinho encontrou casa dentro do meu estômago, um vislumbre das coisas bonitas que podem ler dentro das não-sei-quantas páginas que o livro tem.

E porque nunca é demais relembrar, um agradecimento sentido, profundo, sincero, emocionado a todos os que têm partilhado e contribuído para este livro. OBRIGADA!

18/07/2016

Pode ser apenas isto

Pode ser apenas falta de cafeína. Ou excesso de vento nas sombras da casa a soprar o calor do sol para destinos mais tranquilos. Pode ser uma pontinha de procrastinação a nascer no dedo grande do pé, como uma pinta insuspeita a agarrar raízes no azul profundo do verniz e a espalhar-se perna acima. Pode ser a falta de um bom livro ou de um chá de maçã e canela em condições. Pode ser o silêncio da casa e o marulhar das árvores lá fora. Pode ser que seja apenas a mágoa e o eco de uma porta fechada com indiferença a sobrepor-se à música. Certamente que é só uma insignificância de solidão. Também pode ser apenas falta de cafeína.




Trentemøller - The Dream (feat. Low)

Ressaca das férias maternas

Hesito entre um pacote de batatas fritas e um pacote de gomas com sabor a maçãs verdes. Pelo sim, pelo não, tiro uma de cada. Isto não vai acabar bem.

una-lady-italiana:
“ Helen Mirren by Firooz Zahedi
”
Helen Mirren by Firooz Zahedi


(preciso de uma aplicação que, em vez de encontrar Pokemóns, encontre objectos perdidos e gatos escondidos em casa)

15/07/2016

Os opostos do amor

Foi uma conversa agradável. Durante cerca de duas horas, Júlio Machado Vaz falou sobre futebol, sobre os portugueses e o futebol, o sofrimento, a dependência, o luto, a autopiedade, o amor. E o oposto do amor.

«O oposto do amor é a indiferença. O ódio é ainda uma réstia de sentimento.»

Escrevo as frases que ouvi, num repente, para não as contaminar com palavras minhas. Percebo que é esta a minha luta, aquela que falho em vencer todos os dias. Não há indiferença em nada que faço. Posso remexer o passado que não me interessa e aonde não quero voltar, nem com intimação; posso divagar sobre o tempo; submergir-me em silêncio; pintar as unhas dos pés de azul forte e passar horas a descascar fisális para um doce que não sei se farei. 

Posso ocupar a cabeça com tudo o que me convença que devolvo a mesma indiferença que todos os dias chega e me arrefece mais os ossos, a única certeza que tenho é estar cada vez mais perto do ódio.

13/07/2016

12/07/2016

Campanha «Falta pouco para os 700» - parte II

Faltam 21 dias e 300 €. O que me leva a pensar «lindas ideias maravilhosas tu tens, rapariga!». Só quem gosta de complicar o que é simples é que tenta publicar um livro assim.

Mas toda esta campanha tem tido um impacto na minha vida muito para além do que imaginava, pelas pessoas fantásticas e generosas que ajudaram de muitas formas e divulgaram este projecto -- como a Isabel, a Luísa, o Impontual, o C. N. Gil, o Luís, o josé luís, o Fernando, a A. C., a Elvira, a redonda, a noname, a Castiel, a BeijoMolhado, a Ava Pain  (espero não me ter esquecido de ninguém e, se esqueci, digam-me que corrijo a falta :).

Comoveu-me profundamente o esforço de todos. Não me conhecem, não tinham obrigação alguma, mas fizeram-no e este gesto vai acompanhar-me a vida inteira.

Depois há o outro lado, o da pontinha da desilusão deixada pelos da casa. E digo da casa, no sentido de espaço real, não virtual. Ninguém é profeta na sua própria terra, ainda assim... 

Não sei se já disse, mas um grande, enorme!, obrigada a todos os que ajudaram! :)



10/07/2016

Teoria de Atar Pontas - aplicação prática

kulturtava:
“ Miguel Cuesta
”
Miguel Cuesta

É preciso que passe significativo passado para que se entenda a história que se viveu. Só a abundância da água correndo por baixo da ponte pode limpar a visão turva do que ficou, amaciar as arestas, desgastar a mágoa.

Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, e te vou votando ao esquecimento, sei que posso remexer no lastro que me deixaste, sem medo de me ferir. Posso analisar-te à lupa, peneirar-te os defeitos, estender-te ao sol da minha verdade.

Desde o primeiro dia em que me deixaste medir a profundidade dos teus olhos verdes vi a minha vida inteira. Vi o futuro de muitas décadas. Vi-nos velhos, mesmo velhos, de rugas elegantes, os meus cabelos brancos presos no carrapito da pressa, os teus ombros curvados sobre o tabuleiro de xadrez.

Haverias de me ensinar a paciência das peças que se movem segundo um rigor que desconheço e eu, que sempre te obedeci em quase tudo, haveria de aprender com afinco e jogar até te vencer. Depois, jogaríamos às cartas, porque o amor resulta em muito de uma boa mão.

Conversaríamos demoradamente as nossas conversas íntimas, aquelas coisas só nossas, carregadas de ironia, ácidas como só o nosso humor sabia ser.

Teríamos chá às 5 e bolo fresco, todos os dias. E seríamos daqueles tais velhos muito velhos, como só os velhos que se amam sabem ser.

Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, posso dizer-te num murmúrio apagado pela culpa que procurei no fundo de outros olhos um futuro assim. Não o encontrei, a profundidade ocular dos remexidos mal me cobriu os tornozelos.

Roubaste a minha velhice. Há seis anos que não consigo dar rumo à minha vida.

09/07/2016

Movimento "Queremos ouvir as vozes dos bloggers a declamar poesia"


Li no blogue da Cuca, que o Pipoco Mais Salgado estava a lançar um desafio provocado pela Palmier Encoberto. Depois de ter ouvido poemas tão bons, declamados por bloggers com vozes daquelas que fazem uma pessoa ter pensamentos indecentes, achei que podia esbardalhar isto tudo com a minha participação esganiçada.
Ei-la! (para vosso prazer e deleite. ou não)

08/07/2016

Das feiras

Após incontáveis horas somadas num número de dias que prefro ignorar, o meu respeito e apreço por quen vive do que as feiras dão aumentou substancialmente.

Não há nada de bonito ou romântico ou divertido em estar nas feiras, carregar pesos, estar horas em pé, suportar a indiferença e o enfado de quem mexe em tudo e não compra nada, de quem passa e nem olha - será por medo da lepra.

Voltar para casa com o mesmo que se levou. Os pés inchados.

Odeio feiras! Conto os dias para que sejam passado.

05/07/2016

O trabalho regenera a alma

Ou eu estou doida ou um jovem homem (depreendo pela voz) acabou de me ligar de um empresa a quem tinha pedido informações sobre coisas e houve ali um charminho. A conversa inteira. Foi muito entusiasmo para quem estava só a tratar de coisas chatas.

04/07/2016

You Give Love a Bad Name

So true...

You Give Love A Bad Name - Postmodern Jukebox

03/07/2016

Basta um instante de distracção para me lembrar fortemente que ainda não me esqueci de ti. Por um instante, sei que te odeio.

02/07/2016

Estados de alma

Brooke Shaden, «Journey to Dusk»

30/06/2016

Depois da histeria, um pouco de serenidade

Agora que passou o choque da emoção e esta aventura já vai no segundo dia - uma fartura de tempo, portanto, parece-me importante fazer uma pausa e contextualizar aquele texto que pode, ou não, ver a luz do dia.

Não há em mim qualquer vontade de ser famosa, até porque sei muito bem que fama não significa mérito ou qualidade. Também não pretendo começar uma carreira ligada à escrita, por saber que não seria capaz de o fazer.

Tanto assim é que partilhei aqui no blogue, em 2013, uma troca de opiniões com um querido amigo que me incentivava a atirar-me às letras.







Noell Oszvald


Se assim é, porquê este livro?

Este livro é sobre mim (grande novidade) e um acontecimento muito violento que vivi. Foi a forma que tive de entender o que aconteceu, gastar o sofrimento que dali adveio e, de certa forma, arrumar assunto e pessoa. Até conservar-lhe uma série de características que começo a esquecer, quatro anos passados.

Por isso, este é um livro que detesto, profundamente. Quase odeio. A que não consigo voltar, que me deixou prostrada quando escrevi o último ponto final e que quase deu cabo do resto quando há uns meses o revi para a editora dar início ao processo do crowdpublishing.

Mas este livro é também o resultado da última ordem do meu morto. «Escreve», disse ele, depois morreu-me e escrever foi a única forma de o manter vivo dentro de mim. E, por causa desta ordem, comecei mesmo a escrever no blogue, a assumir os meus poemas, a perder a vergonha de dizer «isto é meu!».

Por isso, este é um livro que amo, profundamente. Se chegar a ser papel impresso, guardá-lo-ei junto dos livros que ele me deixou e então o ciclo ficará completo.


Se me agrada ter quase de impingir às pessoas que comprem um livro que desconhecem e podem nem vir a gostar? Nem por isso. 
Se há coisas que gostava que tivessem sido diferentes? Também.
Mas é o que há.

Se gostarem, se quiserem ajudar, claro que ficarei muito feliz. Senão, aceito com toda a naturalidade.


Um amor morto é uma estranha companhia, está na hora de o deixar em paz.

29/06/2016

Campanha «Falta pouco para os 700» - parte I

Feitas as contas ao primeiro dia de campanha para angariar 700 € que financiem a publicação do meu livro, já cheguei a várias conclusões:

  1. detesto vender coisas;
  2. não tenho jeito para vender o que é meu;
  3. a minha mãe é totó porque se enganou a participar, contribuiu em anónimo e agora nem livro, nem autógrafo, e vai ter de abrir os cordões à bolsa outra vez;
  4. os meus irmãos estão, como sempre, a ver se se escapam de ajudar os meus projectos;
  5. o meu pai fez um ar preocupado quando lhe disse 700 €;
  6. estou quase a prometer fotos indecentes a troco de dinheiro (o que pode ser muito mal interpretado);
  7. quem já ajudou só pode ser tolinho e não tem amor ao próprio dinheiro! (obrigada!!!)


Deixo-vos o vídeo promocional, só para terem a noção da piroseira que é aquele escrito. Depois prometo que deixo de falar do assunto por uns dias.



Entretanto, já só faltam 600 e troca o passo. Coisa pouca, portanto.

28/06/2016

Uma emoção sem limites

Já aqui tinha deixado duas coisas que me aconteceram e que não contava com elas: escrever um conto para a Preguiça Magazine e ter um programa singelo na Foz do Mondego Rádio. Faltava uma, para acabar a trilogia de atropelos inesperados à paz dos meus dias: o meu livro.

Meus queridos leitores, comentadores, anónimos e todos os que por aqui passam, é com muita emoção e uma pontinha de orgulho e muitos pozinhos de medo que vos apresento aquele que foi um dos projectos mais difíceis que levei a cabo e quase acabou de vez que a minha sanidade mental...




~


O livro está na plataforma de crowdfunding, é certo, e se quiserem ajudar a que ele veja a luz, é convosco. Eu só queria mesmo contar-vos a novidade.


Agora vou ali contar a novidade à família, já volto. :))

E mais nada

Toda a minha vida conheci pessoas que se definem como honestas de pensamento que dizem tudo o que pensam e sentem, goste-se ou não de ouvir; que têm ideias muito firmes e as partilham, a qualquer preço; muito verdadeiras e directas. São aquelas que, antes de opinarem, avisam «eu sou muito frontal, digo o que tenho a dizer e mais nada».

Toda a minha vida conheci pessoas que acusaram outras de mesquinhez, vingança, ressabiamento, não saber ouvir e calar, despeito e o mais que aqui caiba, quando ouviram o que não gostaram, ou quando alguém expressou discordância pelo que ouviu.

Curiosamente, as pessoas do segundo tipo foram exactamente as mesmas do primeiro, tão exigentes com a sua liberdade de expressão e o direito à opinião, tão pouco prontas a reconhecê-los no outro.

A estas pessoas, largo-as. São de uma convivência difícil e cansativa -- para além de pouco produtiva, para ambas as partes. É uma pena, algumas até tinham um potencial muito grande.

Shary Boyle

27/06/2016

Incerteza

Não sei o que foi feito do mistério. Desapareceu na noite, dissipou-se no ar. Foi levado para o lado negro dos dias, arrastado pelo cansaço das noites. Não sei que foi feito de ti. Desapareceste na noite, dissipaste-te no ar. Não sei o que te arrastou, nem o destino que escolheste. Um cansaço.

Guillaume Kayacan