08/11/2017

Baby steps #1

Hoje, pela primeira vez, olhando de cima para baixo em toda a verticalidade do meu ser, dei-me conta que não consigo ver os meus pés. E que grandes pés eles são.

06/11/2017

Nidificação

Dizem os livros da especialidade que o desejo de nidificação -- arrumar e limpar a casa como se não houvesse amanhã -- é um sintoma de parto eminente. Não desdigo, mas não valorizo sobremaneira. Muito antes do meu pequeno músico ser uma realidade, já os meus dias eram acometidos de vontades extremas de arrumar e limpar coisas. Se bem pensar, os últimos quinze anos têm sido uma constante de momentos em que os espaços onde estive sofreram mudanças drásticas e foram deixados, nos vários caixotes designados para o efeito, sacos e sacos de lixo e de lastro. Aprendi com o tempo que não podemos carregar todo o passado às costas, sob pena de não haver espaço para o futuro. Foi uma aprendizagem muito útil. especialmente por ter uma casa onde cabia eu e tudo o que arrastei durante anos, mas onde não havia espaço para um marido e um filho. A decisão não foi difícil, talvez pelos anos de treino em desapego, e entre eles e os objectos, ficaram as memórias e espaço para o que virá.

24/10/2017

Continuo a ler-te aos bocadinhos, nos locais que continuam a chamar-me para lá. São de excelência, sei que gostaste de quase todos. Só não me atrevo a ler-te inteiro -- basta a cada dia o seu mal.

11/10/2017

Pequenas descobertas

Gosto de mexer na superfície arredondada da minha barriga. Sentir os movimentos que aumentam de intensidade a casa semana. Dar suaves pancadas com dois dedos, dizendo baixinho seu nome, e receber de volta pancadas não tão suaves assim.

Gosto que as tuas mãos descansem na superfície arredondada da minha barriga. E que lhe dês beijinhos e o chames baixinho e ele reaja com firmeza.

São as pequenas descobertas dos nossos dias que vão mudando devagarinho. Nenhum igual ao outro.

23/09/2017

A noite

A noite traz o sossego,
a colcha fofa que nos cobre a pele.

Espalhamos o corpo e o amor pelos lençóis.

Damos as mãos, contra
o medo e a incerteza.

A noite traz a calma sobre
os nossos corações, nem sempre em
sossego.

08/09/2017

O mundo às riscas

Começaste por ser um insistente cansaço, acompanhado do sono que às 21h me prostrava. Depois, uma intrigante sensibilidade aos cheiros, especialmente os muito florais, que me deixava o estômago às voltas. Passaste a ser um «será?» desconfiado, confirmado nas risquinhas azuis daquela espécie de tubo branco. Foi assim que soubemos que eras mesmo, uma pequena existência que, como o vento, não víamos, mas começávamos já a sentir os efeitos. Enchi-me então da esperança de que te haveria de encher de laços e fitas e folhos com florzinhas miúdas; quebrarias o reinado másculo de ambos os lados da família e serias uma pequena princesa fofa nas nossas vidas. Trouxe-vos às duas, a ti e à esperança, todos os dias de espera até ao momento em que me deitei naquela cama estreita que enchia o pequeno espaço escuro, senti o frio do gel a arrepiar-me a pele, a pressão da sonda do ecógrafo na minha barriga e a tua imagem, pela primeira vez, projectada no ecrã em frente. Foi naquele momento, sem que ninguém mo dissesse, que vos perdi às duas -- contra toda a esperança, o futuro será feito de calções, riscas e muito azul. E eu mal posso esperar para que assim seja.



06/09/2017

Da relativa importância de pensar e falar por escrito

Estou a deixar este espaço morrer devagarinho. Não é por falta de assunto ou de histórias, que esses acontecem diariamente e com salpicos de surrealismo consideráveis. Também não é por falta de ter o que dizer, porque nunca falei tanto na vida toda, o dia inteiro. Talvez resida aqui o problema: o silêncio é uma realidade cada vez mais estranha, não há, pois, a necessidade de o fintar com diálogos mudos.

Depois, existes tu e nós. Nós, que começámos com dois e estamos em rápida progressão para sermos três. Essencialmente tu, meu confidente, aturador de neuras, porto de abrigo, pilar forte da minha vida, delicioso parceiro de aventuras, solucionador de 90% dos problemas que vão aparecendo pelo caminho, o meu amor imperfeitamente perfeito para mim. Tu, que reduziste o passado a uma memória longínqua e difusa, de importância relativa. Tu, que me deixas recados que me inundam os olhos e me dás a mão enquanto dormimos. Tu, que andas às voltas com parafusos, porque é preciso que a cama fique bem segura, e analisas exaustivamente as características dos colchões. Tu, que eu amo com um amor tão intenso e retribuído que às vezes dói. Tu, a quem eu posso dizer tudo, sem o deixar registado de outras formas.

Sim, vamos ser velhinhos, os dois, juntos!

03/08/2017

A primeira exposição

Ver acontecer a primeira exposição no espaço da Letra B é uma mistura de deslumbramento por finalmente haver coisas a acontecer e de um medo miudinho, por causa da responsabilidade que daqui decorre.
O Jorge Antunes (membro do USkP e do MoSK) tem um trabalho que cresce em valor por ser realizado em papel de palha de arroz, um projecto do Centro de Artes do Papel, em Montemor-o-Velho.

Estou felicíssima por o Jorge ter concordado em mostrar os seus desenhos e embarcar nesta aventura que vai estar patente durante um mês e uns pozinhos. A inauguração é dia 12 de Agosto e vocês estão todos convidados. 






Como bónus, podem apreciar reproduções de fotografias do Castelo em meados do século passado, parte da colecção privada de uma cliente que as quer partilhar com os outros. Depois, subam ao Castelo e vejam a diferença(ou vão lá primeiro e depois venham descobrir as diferenças).


30/07/2017

Vamos?



Ou é demasiado paradisíaco? ;)

21/07/2017

Atípicos

Não contámos ao FB a alteração do nosso estado -- o que nos pareceu o mais coerente, já que o mesmo desconhecia o que éramos, não havia por que ficar a saber o que nos tínhamos tornado. Esquecemo-nos que carregávamos máquinas de fotografar, pelo que há poucas provas dos sítios que visitámos, das refeições, dos mimos, de nós. Considerámos que a nossa lua de mel era nossa,  que não era preciso alardear o destino, muito menos perder tempo a actualizar estados que só a nós interessavam. Nem sequer usamos alianças iguais porque tu, na tua imensa generosidade, deixaste que escolhesse a mais brilhante. Não deixamos provas das nossa convivência, é quase como se não existíssemos. Mas nós existimos. Nos longos minutos gastos em conversas, nos regressos a casa e nas despedidas, nos pequenos segredos que se vão paulatinamente desvendando ao mundo, no que não é preciso dizer, num pé que se estica e encontra outro pé do lado de lá, nas gargalhadas e nos pequenos amuos, nesta vida que vamos levando. Pacientemente. Tão estranha, aos olhos dos outros.

Max Dupain,Stiff nor'easter 1940s

18/07/2017

Faz-nos falta 5

Rodearmo-nos de novas experiências.


Mário di Biasi, Anos 50 (?)

14/07/2017

Faz-nos falta 4

Descobrir locais interessantes.

Mário di Biasi, Hungria, 1956

13/07/2017

Faz-nos falta 3

Passear por terras desconhecidas.

Mário di Biasi, Paris, Anos 60

12/07/2017

Faz-nos falta 2

Um Sábado preguiçoso de praia.


Mário di Biasi, Ravena, 1958

11/07/2017

Faz-nos falta

Sentar num banco de jardim.


Mário de Biasi, Milão, Anos 50


05/07/2017

A diferença

Perguntam-me se me sinto diferente. Respondo que não, e não minto. A única diferença está no anelar esquerdo e no dizer público daquilo que já sentia como verdade em privado, há tanto tempo.

04/07/2017

Sozinha

Não é a primeira vez que rodo a chave da porta, sozinha. Não é a primeira vez que subo os degraus íngremes e me deito na cama, sozinha. Não é a primeira vez que sou só eu e o silêncio. Porém, é a primeira vez que tudo acontece, estando eu sozinha, como se há uma vida estivesses comigo e nunca a ausência se tivesse imposto entre nós. Pela primeira vez, em muitos dias, adormeci com dificuldade. Sozinha.

30/06/2017

para a vida toda

autor desconhecido

Ali
Dissemos que era amor para a vida toda
Que era contigo a minha vida toda

16/06/2017

A primeira vez

Em nove anos de blogue, muitas vezes questionei a continuidade deste espaço, mas nunca estive perto da decisão de o eliminar de vez. No fundo, sabia que me seria necessário, que haveria sempre qualquer coisa para partilhar. Até agora. Tenho, por estes dias, questionado seriamente se tenho energia ou vontade suficiente para alimentar este bicho que veio cá para casa com a promessa de ser um pinscher e afinal aconteceu ser um dogue alemão que já não cabe em lado nenhum. 

09/06/2017

É tudo muito cansativo

Ter de pensar, organizar, escrever, ser eloquente, ser engraçado, sem deixar de ser sério e compenetrado, esmiuçar o sofrimento que não se quer nem lembrar quanto mais dissecar, pontuar, corrigir, ser coerente, no mínimo coeso, revelar, relatar, partilhar, ser culto e tornar conhecido os suportes da pretensa cultura, escrever mais, um bocadinho mais, interagir, dar e receber, justificar, e escrever ainda mais. Cansativo.

08/06/2017

E é isto



(mesmo que não saibas responder me respondas aos comentários)

06/06/2017

Mesmo que as coisas às vezes nos fujam das mãos

Meghan Trainor - Like I'm Gonna Lose You ft. John Legend

18/05/2017

Francesca Woodman - Untitled, Providence, Rhode Island, 1975–1978

10/05/2017

Como um bambu chinês

A minha vida sempre se precipitou. Desde que me lembro. As coisas aconteceram-me sempre muito depois de acontecerem à maioria (essa medida exacta do valor da nossa vida) e tudo ao mesmo tempo. Sou uma espécie de bambu chinês que precisa de grandes saltos temporais para avançar. 2016 deu o mote, 2017 há-de trazer de uma vez tudo aquilo que tenho esperado por anos. Se me assusta? Nem por isso, só me deixa expectante.

03/05/2017

A razão de me achar tão ausente

Ter-se-ão dado conta os meus ilustríssimos seguidores que o silêncio anda gritante por estes lados. Não é por mal, nem necessariamente só por causa do amor, tem na sua causa um projecto que se desenvolve há cerca de um ano e vai este Sábado, dia 06 de Maio, ver finalmente a luz.

Foram muitos meses de trabalho intenso, bastante desespero, lágrimas algumas, suor muito e até uns pingos de sangue aqui e ali. É ainda pequenino, mas deseja-se que cresça e se torne grande e forte.

De que falo eu? Da minha Letra B -- a evolução da Colher para um nível mais complexo; um lugar que se quer uma cafetaria e um espaço de cultura, aberto a todos, principalmente aos amadores ou àqueles que procuram um espaço para se lançarem.

Sábado, inauguramos a exposição fotográfica Genesis, feita por fotógrafos amadores, com o desejo ardente que seja um início para mostrarmos coisas bem bonitas -- as vossas coisas. Juntámos, por agora, o artesanato urbano da Ternaarte, as encadernações da Chronospaper, os chocolates deliciosos da ZenLicious, porque o melhor da vida está do lado b.



(agora vou ali respirar fundo três vezes, para ignorar o pó que ainda anda aqui pelo ar)

10/04/2017

29/03/2017

Mais um ano

Ao abrir a pasta dos Rascunhos, encontro esta mensagem escrita há muito. Abro-a e percebo num repente que me esqueci de assinalar o meu aniversário, no blogue. Não é grave, só passou um mês e oito dias.



28/03/2017

Dos (muitos) dias felizes

Castelo de Montemor-o-Velho

24/03/2017

Fedora

Indiscutivelmente, a tua fedora fica-me melhor a mim

autor desconhecido

21/03/2017

Eu ontem vi-te

Eu ontem vi-te…
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.


Ângelo de Lima (1872-1921)

09/03/2017

Ser ou não ser um robot

Gosto quando o Blogger me pede para confirmar que não sou um robot. É um momento inesperado de tomada de consciência, um estremecimento nos pilares do meu auto-conhecimento. Quem sou eu? Posso não alcançar respostas absolutas, bastará que saiba o que não sou, não sou um robot. É um descanso para a alma saber que não fui criada para os automatismos, nem para a ausência de sentimentos, e que há veias e órgãos vários dentro de mim, em vez de fios e rodas dentadas. Confirmo na caixa de diálogo que não sou um robot e o meu pensamento escrito é aceite sem mais (a menos que o meu pensamento não vá avec o pensamento do dono do blogue).

08/03/2017

Banho

Preciso de tomar banho. Tenho o corpo dorido e o cabelo numa lástima. Não consigo concentrar-me quando sinto o cabelo menos limpo. Incomoda-me o raciocínio e provoca-me olheiras. Por isso, preciso de tomar banho. Urgentemente. Sentir a água quente a correr na pele, o cabelo envolto em espuma perfumada, ensaboar-me e lavar o cansaço e as olheiras. Vestir uma roupa lavada e secar o cabelo até ao brilho final. Preciso tanto de tomar banho! E já o teria feito, não fora enganar-me a dar ordem de aquecimento ao depósito amigo do ambiente.


A woman uses a crooked back brush equipped with front and rear-view mirrors, 1947.
(Allan Grant—The LIFE Picture Collection/Getty Images)

07/03/2017

Mais que nunca

Tenho vivido mais que nunca. Amado mais que nunca. Rido mais que nunca. Passeado mais que nunca. Planeado mais que nunca. Feito coisas mais que nunca. Intensamente, mais que nunca. E escrito menos que nunca. Porque a vida vai acontecendo do lado de cá, não é preciso registá-la de outra forma.

03/03/2017

Cada vez mais

Incomoda-me a escrita musculada, demasiado trabalhada para parecer complexa, cheia de parêntesis e palavras excessivas. Resisto cada vez mais a textos incapazes de se adequarem à conversa que têm comigo, como se se imbuíssem de uma superioridade professoral enfadada pela minha ignorância. Diminui-me a paciência para a pseudo-intelectualidade. Fujo-lhes. Cada vez mais. Mas mergulho com todo o prazer nos textos aparentemente simples, inteligentes e cultos, que me desconcertam com a palavra certa, no lugar certo. Sabem sempre falar-me do que desconheço, com a sabedoria dos velhos, humildes. Procuro-os. Cada vez mais.

28/02/2017

No dia de todas as máscaras, ponho de lado as minhas, para que me vejas tal-qual eu sou, Sem artifícios.


autor desconhecido

15/02/2017

Dia após dia

Não há como fugir. As responsabilidades estão todas aqui, à minha frente, a exigirem que as assuma e faça o que tenho de fazer. E eu assumo e faço. Faço tudo o que sei e vou inventando à medida que as horas avançam. Dia após dia é assim. Prefiro ignorar as vezes em que quase me fizeram desistir, as vezes em que desejei desistir, as vezes em que estive por um fio. Tem sido um peso difícil de carregar em braços e as promessas de ajuda não se cumpriram, porque há toda uma tradição burocrática que é preciso manter. Mas vieram mãos inesperadas a dar forma ao sonho. E vieste tu a combater a rotina dos dias com uma rotina nova, estimulante e apaixonada. O cursor pisca na folha parada, branca para a frente, à espera que a tua voz desvende todos os mistérios do meu mundo. Entre orçamentos e números de telefone, dizes que me amas e todos os números fazem de repente sentido. Falta pouco! Falta pouco!, dizes, embalando-me o medo, adormecendo a dúvida pequenina que insiste em sentar-se na beira da mesa. Dia após dia é assim. Porque falta pouco, falta realmente pouco. Tu prometeste.

14/02/2017

uma pérola no meio dos escolhos do passado

Pensei durante dias se hoje haveria de deixar neste espaço algum resquício do amor que te tenho. Por causa de ti, descobri o egoísmo e o afinco com que se guardam segredos. Não quero partilhar-te com o mundo, nem preciso. Pensei, por isso, durante muitos dias, se hoje, porque particularmente hoje é preciso que se diga o amor com cobertura de açúcar e embrulhado em celofane vermelho, dizia eu, se hoje seria assim tão importante escrever um texto que justificasse o silêncio que faço sobre ti. Considerei explicar que me salvaste do desterro emocional para onde tinha decidido ir. Pus até a hipótese de enumerar todas as vezes que me fazes rir e te indignas quando não me tratam bem e te espantas com as coisas que te digo e gargalhas com as minhas anedotas de gosto duvidoso e ouves pacientemente todas as minhas queixas e me dizes sempre a verdade, mesmo que machuque um bocadinho. Também ponderei divagar pelos quilómetros que percorremos a pé, pelos pequenos gestos e os enormes planos que temos para a vida. Depois decidi que não, não iria escrever nada, iria dizer-te tudo, tudo, tudo, ainda mais uma vez. Mas depois... depois eu vi o que me deixaste e um sorriso ocupou-me a cara e os olhos encheram-se de emoções e eu percebi que, mesmo sem dizer muito, precisava de deixar neste espaço - uma pérola no meio dos escolhos do passado - a verdade fundamental da minha vida: amo-te.

11/02/2017

Estado de espírito do dia

ver o pêlo da alcatifa crescer.


autor desconhecido

09/02/2017

I'll be there when you need me most

Be There - Seafret

08/02/2017

Hoje

Devia ter percebido quando vi a música escolhida para análise num determinado programa de rádio. Não o consegui ouvir, confesso, seria perturbar-te demasiado a memória, ainda que na minha assuma o forjamento. Devia ter percebido, mas não percebi. Foi mais tarde, quando os olhos poisaram discretamente no canto inferior direito do portátil, que a lembrança, como um raio, me sacudiu os ossos. Esqueci-me. A segunda vez num ano e eu esqueci-me. O meu maior medo, como uma sombra, já me engoliu os pés. Pelo menos guardei-te em livro.

07/02/2017

no final poucas coisas contam, talvez apenas três

e que no final poucas coisas contam, talvez apenas três:
com quanta paixão amaste, quão suavemente viveste
e com que elegância conseguiste deixar para trás
coisas que por fim soubeste não te serem destinadas.

José Luís Borges de Almeida, in Dédalo

06/02/2017

02/02/2017

A/C de Dá-me o prazer de entrar e sair em bicos dos pés

Essa personagem tão falha de ideias e poucochinha que, para sentir que alcançou alguma coisa na vida, precisa de se apropriar do que é dos outros. Podes continuar a roubar os meus textos, a publicá-los de enfiada quando não me deixas comentar, se dá sentido à vida. Lamento o vazio em que vives.



Quem vive entre as ervas, bicando pedrinhas, nunca voará.



20/01/2017

Confirma-se

Eu arranjei um Escalfeta-Humano!

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19/01/2017

Voltar

Voltar ao lugar onde vivo e não o sentir como a minha casa. Faltam-me os armários que começo a decorar e as portas que já não me engano em abrir. Voltar, querendo ficar. Deixar para trás um futuro que se vai escrevendo com paciência, em todos os recantos. O sol a espelhar-se no rio, a janela aberta, o calor cá dentro. Voltar, contando os dias que faltam para regressar. Inventar razões só porque é preciso suspeitar da distância. Planear, desejar, falar muito do que se quer. Suspirar sincronizadamente e analisar todas as variáveis, pela enésima vez. Apertar mãos, distribuir beijos, decorar nomes. Pertencer. Voltar ao lugar onde ainda não vivo e senti-lo já como a minha casa.



18/01/2017

O amor agita-se como um pássaro preso na rede do coração.

Laura Makabresku

17/01/2017

Contra o expectável

Precipitadamente, julguei que estaríamos acima daquele sentimento tão estranho chamado sofrimento. As despedidas eram sempre um até já, ainda que estivessem à distância de muitos dias. Cada viagem, a antecipação do regresso a casa. Embrulhávamos a vontade no manto racional de ter de ser assim mesmo, aconchegada na alegria esperançosa de faltar pouco, muito pouco. Até ao dia em que as zonas neutras deixaram de existir e todos os espaços conhecidos deixaram de ser meus e teus e passaram a ser nossos. 



Karin Boye

11/01/2017

A luz dos teus olhos

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Mario de Biasi


Pela luz dos olhos teus
Vinicius de Moraes

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

10/01/2017

A suprema saudade

Adormecer e acordar com saudades de Ti. Porque há coisas que não se explicam, apenas se vivem -- na doçura de um furacão.

Quem já pisou no Santo dos Santos
Em outro lugar não sabe viver

O que a Sua Glória fez comigo - Fernanda Brum

06/01/2017

Tu és a única diferença

Sento-me e espero. É uma acção conhecida, incapaz de me surpreender. Ponho no pulso o relógio que cheira a saudade e espero. Olho o arrastar dos ponteiros, o tiquetaque ensurdecedor nos meus ouvidos, e acalmo o coração, escondendo a mão no teu bolso. O tempo líquido ensopa-me os joelhos e eu abrigo-me na memória do teu corpo. Estou sentada, esperando. É uma acção conhecida -- tu és a única diferença.




(porque tudo conspira para me consolar, o Spotify sugere-me esta música...)





I'll Stay (Carla's song) - Matt Stinton

They say time is changing everything 
Even coldest winter yields its grip to spring 
But you and I we're not afraid of time
We're content to watch our days unwind 

I'll stay when the mountains are covered with snow 
And the rages have weathered 
And when all around us is falling apart 
I will love you 

They say passion's only for the young 
One day you have it but the next it's gone 
And you and I our hearts have been entwined 
This we know our love will grow and grow 

I'll stay when the mountains are covered with snow 
And the rages have weathered 
And when all around us is falling apart 
I will love you 

Darling I must have been sleeping 
All of those years before your arms held me 
Love of my youth and my old age 
I am with you until my final breath 

I'll stay when the mountains are covered with snow 
And the rages have weathered 
And when all around us is falling apart 
I will love you 
I will love you

04/01/2017

Esqueci-me. Este ano, pela primeira vez, esqueci-me do início da tua inexistência. Não que me esqueça de ti, que não o faço, tão-só não me lembrei. É isso, não me lembrei do dia em que marcaste a ferro líquido uma marca de mágoa que o tempo tem demorado em sarar. Mas ela vai sarando, devagarinho e um dia atrás do outro. O pó de estrela que tens soprado dessa nuvem que habitas no céu longínquo começa a fazer efeito: a vida já faz mais sentido. 

03/01/2017

E ela ocupou-se dele

Como quem sabe de antemão que esse é o curso natural dos afectos, reorganizou-se para o acolher. Deixou que pregasse pregos nas paredes, cedeu-lhe metade do guarda-fatos, empurrou livros para um lado e arrumou algumas molduras, dividiu gavetas e aceitou o que lhe pertencia. O amor está nas pequenas cedências, no espaço que se concede, na generosidade com que se aceita a vida que o outro traz consigo sem se sentir diminuído, antes mais completo. Ele ocupou a casa e ocupou-se dela. 


Um amor morto, Carla Pinto Coelho



noonesnemesis:
“ “ Relaxing
leen 1952
” ”

01/01/2017

Adeus, 2016. Bem-vindo, 2017


Querido 2016, pedi-te que me deixasses saudades e quase falhaste em cumprir o meu pedido. Começaste como têm começado todos os meus anos anteriores, numa série que conta já a dezena, mal. Começaste incrivelmente mal, com mais uma desilusão misturada na perda de um bem que se julgou ter e afinal era uma ilusão feita nuvem. Depois, orientaste-te lá pelo meio e traçaste linhas no meu futuro, por terras nunca antes caminhadas. Deste-me a conhecer o medo de falhar, a ânsia de conseguir, a paciência da espera e o medo miudinho na palma das mãos. Mas deste-me também o maior bem que tenho na vida, o achado mais bonito que alguma vez fiz, que enche os meus dias e as minhas noites de um sentimento que não tenho como explicar. Acabaste tremendamente bem, superaste até tudo o que tinha imaginado numa situação assim. Deixei-te ir no suspiro de um beijo. Bem-vindo, 2017, entra e traz-me tudo o que me está prometido.