18/05/2017

Francesca Woodman - Untitled, Providence, Rhode Island, 1975–1978

10/05/2017

Como um bambu chinês

A minha vida sempre se precipitou. Desde que me lembro. As coisas aconteceram-me sempre muito depois de acontecerem à maioria (essa medida exacta do valor da nossa vida) e tudo ao mesmo tempo. Sou uma espécie de bambu chinês que precisa de grandes saltos temporais para avançar. 2016 deu o mote, 2017 há-de trazer de uma vez tudo aquilo que tenho esperado por anos. Se me assusta? Nem por isso, só me deixa expectante.

03/05/2017

A razão de me achar tão ausente

Ter-se-ão dado conta os meus ilustríssimos seguidores que o silêncio anda gritante por estes lados. Não é por mal, nem necessariamente só por causa do amor, tem na sua causa um projecto que se desenvolve há cerca de um ano e vai este Sábado, dia 06 de Maio, ver finalmente a luz.

Foram muitos meses de trabalho intenso, bastante desespero, lágrimas algumas, suor muito e até uns pingos de sangue aqui e ali. É ainda pequenino, mas deseja-se que cresça e se torne grande e forte.

De que falo eu? Da minha Letra B -- a evolução da Colher para um nível mais complexo; um lugar que se quer uma cafetaria e um espaço de cultura, aberto a todos, principalmente aos amadores ou àqueles que procuram um espaço para se lançarem.

Sábado, inauguramos a exposição fotográfica Genesis, feita por fotógrafos amadores, com o desejo ardente que seja um início para mostrarmos coisas bem bonitas -- as vossas coisas. Juntámos, por agora, o artesanato urbano da Ternaarte, as encadernações da Chronospaper, os chocolates deliciosos da ZenLicious, porque o melhor da vida está do lado b.



(agora vou ali respirar fundo três vezes, para ignorar o pó que ainda anda aqui pelo ar)

18/04/2017

E ao terceiro dia

Ele ressuscitou.

10/04/2017

29/03/2017

Mais um ano

Ao abrir a pasta dos Rascunhos, encontro esta mensagem escrita há muito. Abro-a e percebo num repente que me esqueci de assinalar o meu aniversário, no blogue. Não é grave, só passou um mês e oito dias.



28/03/2017

Dos (muitos) dias felizes

Castelo de Montemor-o-Velho

24/03/2017

Fedora

Indiscutivelmente, a tua fedora fica-me melhor a mim

autor desconhecido

21/03/2017

Eu ontem vi-te

Eu ontem vi-te…
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.


Ângelo de Lima (1872-1921)

09/03/2017

Ser ou não ser um robot

Gosto quando o Blogger me pede para confirmar que não sou um robot. É um momento inesperado de tomada de consciência, um estremecimento nos pilares do meu auto-conhecimento. Quem sou eu? Posso não alcançar respostas absolutas, bastará que saiba o que não sou, não sou um robot. É um descanso para a alma saber que não fui criada para os automatismos, nem para a ausência de sentimentos, e que há veias e órgãos vários dentro de mim, em vez de fios e rodas dentadas. Confirmo na caixa de diálogo que não sou um robot e o meu pensamento escrito é aceite sem mais (a menos que o meu pensamento não vá avec o pensamento do dono do blogue).

08/03/2017

Banho

Preciso de tomar banho. Tenho o corpo dorido e o cabelo numa lástima. Não consigo concentrar-me quando sinto o cabelo menos limpo. Incomoda-me o raciocínio e provoca-me olheiras. Por isso, preciso de tomar banho. Urgentemente. Sentir a água quente a correr na pele, o cabelo envolto em espuma perfumada, ensaboar-me e lavar o cansaço e as olheiras. Vestir uma roupa lavada e secar o cabelo até ao brilho final. Preciso tanto de tomar banho! E já o teria feito, não fora enganar-me a dar ordem de aquecimento ao depósito amigo do ambiente.


A woman uses a crooked back brush equipped with front and rear-view mirrors, 1947.
(Allan Grant—The LIFE Picture Collection/Getty Images)

07/03/2017

Mais que nunca

Tenho vivido mais que nunca. Amado mais que nunca. Rido mais que nunca. Passeado mais que nunca. Planeado mais que nunca. Feito coisas mais que nunca. Intensamente, mais que nunca. E escrito menos que nunca. Porque a vida vai acontecendo do lado de cá, não é preciso registá-la de outra forma.

03/03/2017

Cada vez mais

Incomoda-me a escrita musculada, demasiado trabalhada para parecer complexa, cheia de parêntesis e palavras excessivas. Resisto cada vez mais a textos incapazes de se adequarem à conversa que têm comigo, como se se imbuíssem de uma superioridade professoral enfadada pela minha ignorância. Diminui-me a paciência para a pseudo-intelectualidade. Fujo-lhes. Cada vez mais. Mas mergulho com todo o prazer nos textos aparentemente simples, inteligentes e cultos, que me desconcertam com a palavra certa, no lugar certo. Sabem sempre falar-me do que desconheço, com a sabedoria dos velhos, humildes. Procuro-os. Cada vez mais.

28/02/2017

No dia de todas as máscaras, ponho de lado as minhas, para que me vejas tal-qual eu sou, Sem artifícios.


autor desconhecido

15/02/2017

Dia após dia

Não há como fugir. As responsabilidades estão todas aqui, à minha frente, a exigirem que as assuma e faça o que tenho de fazer. E eu assumo e faço. Faço tudo o que sei e vou inventando à medida que as horas avançam. Dia após dia é assim. Prefiro ignorar as vezes em que quase me fizeram desistir, as vezes em que desejei desistir, as vezes em que estive por um fio. Tem sido um peso difícil de carregar em braços e as promessas de ajuda não se cumpriram, porque há toda uma tradição burocrática que é preciso manter. Mas vieram mãos inesperadas a dar forma ao sonho. E vieste tu a combater a rotina dos dias com uma rotina nova, estimulante e apaixonada. O cursor pisca na folha parada, branca para a frente, à espera que a tua voz desvende todos os mistérios do meu mundo. Entre orçamentos e números de telefone, dizes que me amas e todos os números fazem de repente sentido. Falta pouco! Falta pouco!, dizes, embalando-me o medo, adormecendo a dúvida pequenina que insiste em sentar-se na beira da mesa. Dia após dia é assim. Porque falta pouco, falta realmente pouco. Tu prometeste.

14/02/2017

uma pérola no meio dos escolhos do passado

Pensei durante dias se hoje haveria de deixar neste espaço algum resquício do amor que te tenho. Por causa de ti, descobri o egoísmo e o afinco com que se guardam segredos. Não quero partilhar-te com o mundo, nem preciso. Pensei, por isso, durante muitos dias, se hoje, porque particularmente hoje é preciso que se diga o amor com cobertura de açúcar e embrulhado em celofane vermelho, dizia eu, se hoje seria assim tão importante escrever um texto que justificasse o silêncio que faço sobre ti. Considerei explicar que me salvaste do desterro emocional para onde tinha decidido ir. Pus até a hipótese de enumerar todas as vezes que me fazes rir e te indignas quando não me tratam bem e te espantas com as coisas que te digo e gargalhas com as minhas anedotas de gosto duvidoso e ouves pacientemente todas as minhas queixas e me dizes sempre a verdade, mesmo que machuque um bocadinho. Também ponderei divagar pelos quilómetros que percorremos a pé, pelos pequenos gestos e os enormes planos que temos para a vida. Depois decidi que não, não iria escrever nada, iria dizer-te tudo, tudo, tudo, ainda mais uma vez. Mas depois... depois eu vi o que me deixaste e um sorriso ocupou-me a cara e os olhos encheram-se de emoções e eu percebi que, mesmo sem dizer muito, precisava de deixar neste espaço - uma pérola no meio dos escolhos do passado - a verdade fundamental da minha vida: amo-te.

11/02/2017

Estado de espírito do dia

ver o pêlo da alcatifa crescer.


autor desconhecido

09/02/2017

I'll be there when you need me most

Be There - Seafret

08/02/2017

Hoje

Devia ter percebido quando vi a música escolhida para análise num determinado programa de rádio. Não o consegui ouvir, confesso, seria perturbar-te demasiado a memória, ainda que na minha assuma o forjamento. Devia ter percebido, mas não percebi. Foi mais tarde, quando os olhos poisaram discretamente no canto inferior direito do portátil, que a lembrança, como um raio, me sacudiu os ossos. Esqueci-me. A segunda vez num ano e eu esqueci-me. O meu maior medo, como uma sombra, já me engoliu os pés. Pelo menos guardei-te em livro.

07/02/2017

no final poucas coisas contam, talvez apenas três

e que no final poucas coisas contam, talvez apenas três:
com quanta paixão amaste, quão suavemente viveste
e com que elegância conseguiste deixar para trás
coisas que por fim soubeste não te serem destinadas.

José Luís Borges de Almeida, in Dédalo

06/02/2017

02/02/2017

A/C de Dá-me o prazer de entrar e sair em bicos dos pés

Essa personagem tão falha de ideias e poucochinha que, para sentir que alcançou alguma coisa na vida, precisa de se apropriar do que é dos outros. Podes continuar a roubar os meus textos, a publicá-los de enfiada quando não me deixas comentar, se dá sentido à vida. Lamento o vazio em que vives.



Quem vive entre as ervas, bicando pedrinhas, nunca voará.



20/01/2017

Confirma-se

Eu arranjei um Escalfeta-Humano!

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19/01/2017

Voltar

Voltar ao lugar onde vivo e não o sentir como a minha casa. Faltam-me os armários que começo a decorar e as portas que já não me engano em abrir. Voltar, querendo ficar. Deixar para trás um futuro que se vai escrevendo com paciência, em todos os recantos. O sol a espelhar-se no rio, a janela aberta, o calor cá dentro. Voltar, contando os dias que faltam para regressar. Inventar razões só porque é preciso suspeitar da distância. Planear, desejar, falar muito do que se quer. Suspirar sincronizadamente e analisar todas as variáveis, pela enésima vez. Apertar mãos, distribuir beijos, decorar nomes. Pertencer. Voltar ao lugar onde ainda não vivo e senti-lo já como a minha casa.



18/01/2017

O amor agita-se como um pássaro preso na rede do coração.

Laura Makabresku

17/01/2017

Contra o expectável

Precipitadamente, julguei que estaríamos acima daquele sentimento tão estranho chamado sofrimento. As despedidas eram sempre um até já, ainda que estivessem à distância de muitos dias. Cada viagem, a antecipação do regresso a casa. Embrulhávamos a vontade no manto racional de ter de ser assim mesmo, aconchegada na alegria esperançosa de faltar pouco, muito pouco. Até ao dia em que as zonas neutras deixaram de existir e todos os espaços conhecidos deixaram de ser meus e teus e passaram a ser nossos. 



Karin Boye

11/01/2017

A luz dos teus olhos

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Mario de Biasi


Pela luz dos olhos teus
Vinicius de Moraes

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

10/01/2017

A suprema saudade

Adormecer e acordar com saudades de Ti. Porque há coisas que não se explicam, apenas se vivem -- na doçura de um furacão.

Quem já pisou no Santo dos Santos
Em outro lugar não sabe viver

O que a Sua Glória fez comigo - Fernanda Brum

06/01/2017

Tu és a única diferença

Sento-me e espero. É uma acção conhecida, incapaz de me surpreender. Ponho no pulso o relógio que cheira a saudade e espero. Olho o arrastar dos ponteiros, o tiquetaque ensurdecedor nos meus ouvidos, e acalmo o coração, escondendo a mão no teu bolso. O tempo líquido ensopa-me os joelhos e eu abrigo-me na memória do teu corpo. Estou sentada, esperando. É uma acção conhecida -- tu és a única diferença.




(porque tudo conspira para me consolar, o Spotify sugere-me esta música...)





I'll Stay (Carla's song) - Matt Stinton

They say time is changing everything 
Even coldest winter yields its grip to spring 
But you and I we're not afraid of time
We're content to watch our days unwind 

I'll stay when the mountains are covered with snow 
And the rages have weathered 
And when all around us is falling apart 
I will love you 

They say passion's only for the young 
One day you have it but the next it's gone 
And you and I our hearts have been entwined 
This we know our love will grow and grow 

I'll stay when the mountains are covered with snow 
And the rages have weathered 
And when all around us is falling apart 
I will love you 

Darling I must have been sleeping 
All of those years before your arms held me 
Love of my youth and my old age 
I am with you until my final breath 

I'll stay when the mountains are covered with snow 
And the rages have weathered 
And when all around us is falling apart 
I will love you 
I will love you

04/01/2017

Esqueci-me. Este ano, pela primeira vez, esqueci-me do início da tua inexistência. Não que me esqueça de ti, que não o faço, tão-só não me lembrei. É isso, não me lembrei do dia em que marcaste a ferro líquido uma marca de mágoa que o tempo tem demorado em sarar. Mas ela vai sarando, devagarinho e um dia atrás do outro. O pó de estrela que tens soprado dessa nuvem que habitas no céu longínquo começa a fazer efeito: a vida já faz mais sentido. 

03/01/2017

E ela ocupou-se dele

Como quem sabe de antemão que esse é o curso natural dos afectos, reorganizou-se para o acolher. Deixou que pregasse pregos nas paredes, cedeu-lhe metade do guarda-fatos, empurrou livros para um lado e arrumou algumas molduras, dividiu gavetas e aceitou o que lhe pertencia. O amor está nas pequenas cedências, no espaço que se concede, na generosidade com que se aceita a vida que o outro traz consigo sem se sentir diminuído, antes mais completo. Ele ocupou a casa e ocupou-se dela. 


Um amor morto, Carla Pinto Coelho



noonesnemesis:
“ “ Relaxing
leen 1952
” ”

01/01/2017

Adeus, 2016. Bem-vindo, 2017


Querido 2016, pedi-te que me deixasses saudades e quase falhaste em cumprir o meu pedido. Começaste como têm começado todos os meus anos anteriores, numa série que conta já a dezena, mal. Começaste incrivelmente mal, com mais uma desilusão misturada na perda de um bem que se julgou ter e afinal era uma ilusão feita nuvem. Depois, orientaste-te lá pelo meio e traçaste linhas no meu futuro, por terras nunca antes caminhadas. Deste-me a conhecer o medo de falhar, a ânsia de conseguir, a paciência da espera e o medo miudinho na palma das mãos. Mas deste-me também o maior bem que tenho na vida, o achado mais bonito que alguma vez fiz, que enche os meus dias e as minhas noites de um sentimento que não tenho como explicar. Acabaste tremendamente bem, superaste até tudo o que tinha imaginado numa situação assim. Deixei-te ir no suspiro de um beijo. Bem-vindo, 2017, entra e traz-me tudo o que me está prometido.